Anvisa alerta para possíveis danos ao fígado provocados por suplementos à base de cúrcuma

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou, nesta sexta-feira (6), um alerta de farmacovigilância voltado a medicamentos e suplementos alimentares que contenham cúrcuma, também conhecida como açafrão. A medida foi motivada por relatos internacionais de inflamação e de lesões hepáticas associados ao consumo de produtos em cápsulas ou extratos concentrados da raiz.

De acordo com a Anvisa, os casos identificados são raros, porém definidos como graves. As notificações referem-se, principalmente, a formulações que utilizam tecnologias capazes de elevar a absorção da curcumina – principal composto ativo da cúrcuma – a níveis muito superiores aos observados na ingestão do tempero em preparações culinárias. Esse aumento de biodisponibilidade estaria relacionado ao risco de toxicidade no fígado.

Alertas em outros países

O comunicado brasileiro acompanha recomendações já publicadas por agências reguladoras da Itália, da Austrália, do Canadá e da França. Neste último país, a Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho registrou dezenas de relatos de efeitos adversos, entre eles casos de hepatite, atribuídos ao uso contínuo de suplementos que fornecem doses concentradas de cúrcuma ou curcumina.

Embora não exista registro público de surtos semelhantes no Brasil, a Anvisa reforçou a necessidade de vigilância pelos serviços de saúde e pelos fabricantes. O órgão orienta que todo evento suspeito seja notificado, permitindo a análise de causalidade e a adoção de medidas regulatórias, caso sejam confirmados novos casos.

Orientações a profissionais, empresas e consumidores

O alerta emitido traz recomendações específicas para três públicos:

  • Profissionais de saúde: devem avaliar o histórico do paciente antes de prescrever produtos com cúrcuma, monitorar possíveis sinais de hepatotoxicidade e relatar eventos adversos pelo sistema VigiMed.
  • Fabricantes de medicamentos e suplementos: precisam revisar informações de segurança, realizar estudos de estabilidade e garantir que advertências estejam presentes em material de divulgação e rotulagem.
  • Consumidores: devem interromper o uso e buscar atendimento médico caso apresentem sintomas compatíveis com dano hepático.

Sinais que exigem atenção

Entre os indícios que podem apontar para lesão no fígado após o consumo de cápsulas ou extratos de cúrcuma, a agência cita:

  • icterícia (pele ou olhos amarelados);
  • urina escura;
  • cansaço intenso sem causa aparente;
  • náuseas acompanhadas de dor na região abdominal.

Nesses casos, a orientação é suspender o produto imediatamente e procurar avaliação médica. As suspeitas relacionadas a medicamentos devem ser registradas no VigiMed, enquanto os eventos associados a suplementos necessitam ser comunicados no sistema e-Notivisa.

Uso culinário não está envolvido

A Anvisa esclarece que o risco descrito no comunicado não se aplica ao uso da cúrcuma em pó como condimento ou aditivo alimentar. No preparo cotidiano de refeições, as concentrações ingeridas são consideradas seguras, não havendo evidências de toxicidade hepática relacionada a essa forma de consumo.

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Imagem: Internet

A diferença central reside na dosagem: suplementos podem concentrar grandes quantidades de curcumina e utilizar substâncias que aumentam sua absorção, elevando a exposição do organismo a patamares muito superiores aos obtidos por meio da alimentação.

Medidas regulatórias imediatas

Como ação preventiva, a agência determinou a atualização das bulas dos medicamentos Motore e Cumiah, ambos contendo cúrcuma em sua formulação. As novas bulas deverão incluir avisos de segurança sobre o potencial de efeitos indesejados no fígado.

No segmento de suplementos alimentares, a Anvisa iniciará um processo de reavaliação do uso da substância. Entre as providências previstas, está a exigência de advertências obrigatórias nos rótulos acerca da possibilidade de hepatotoxicidade, medida que se alinhará às boas práticas adotadas por outras autoridades sanitárias internacionais.

Importância da notificação

A agência enfatiza que o monitoramento pós-comercialização de produtos é fundamental para detectar precocemente riscos que, até então, não haviam sido demonstrados em ensaios clínicos ou estudos pré-mercado. A participação ativa de profissionais de saúde e consumidores no registro de eventos adversos permite a identificação de padrões e o desenvolvimento de ações que protejam a população.

Enquanto a investigação prossegue, a recomendação é de cautela no uso autônomo de suplementos à base de cúrcuma, sobretudo aqueles que prometem maior biodisponibilidade ou contêm combinações com piperina e outras substâncias capazes de potencializar a absorção. Consumidores com histórico de problemas hepáticos devem buscar orientação especializada antes de iniciar qualquer suplementação.

Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

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