Blocos ligados à saúde mental reforçam inclusão no carnaval de 2026 no Rio
O carnaval carioca de 2026 volta a reunir foliões em torno da música e da cultura popular, mas também consolida iniciativas de inclusão. Quatro blocos formados por usuários da Rede de Atenção Psicossocial, familiares, profissionais de saúde e moradores de diferentes regiões da cidade desfilarão entre 6 e 12 de fevereiro, propondo conscientização sobre saúde mental e combate ao estigma associado ao sofrimento psíquico.
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio) destaca que as agremiações funcionam como espaços de pertencimento, cidadania e cuidado em liberdade. Segundo o superintendente de Saúde Mental da pasta, Hugo Fernandes, a participação de pessoas em sofrimento psíquico na festa pública reafirma o direito à cultura, ao lazer e ao convívio comunitário.
Durante todo o ano, os blocos oferecem oficinas de música, percussão, fantasias e artesanato dentro dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e de Centros de Convivência. As atividades estimulam a expressão artística dos participantes e ampliam o diálogo com a sociedade sobre inclusão, respeito às diferenças e cuidado coletivo.
Zona Mental abre programação no dia 6
Criado em 2015 na Zona Oeste, o bloco Zona Mental realiza seu quarto desfile de rua em 6 de fevereiro. A concentração começa às 16h na Praça Guilherme da Silveira, no Ponto Chic, de onde o cortejo seguirá pelas ruas de Bangu. A agremiação é presidida pela musicoterapeuta Débora Rezende, do Caps Neusa Santos Souza, em parceria com a artista Rogéria Barbosa, usuária do mesmo serviço.
O grupo reúne cerca de 14 unidades de saúde mental da região e conta com a participação de ritmistas das escolas de samba Unidos de Bangu e Mocidade Independente de Padre Miguel. Em 2026, o tema homenageia os migrantes nordestinos que vivem na Zona Oeste. O samba-enredo vencedor, composto pelo usuário Marco Antonio Amaral, faz referência ao multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal, que residiu em Bangu e morreu no ano passado, aos 89 anos.
Tá Pirando comemora 25 anos da Lei Antimanicomial
Fundado em 2005, o Tá Pirando, Pirado, Pirou! completa 21 anos de atividades em 2026 e marcará o aniversário de 25 anos da Lei 10.216/2001, que estruturou a reforma psiquiátrica no Brasil. O desfile ocorrerá em 8 de fevereiro, com concentração às 15h na Avenida Pasteur, na Urca, em frente à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
O bloco presta tributo ao psiquiatra italiano Franco Basaglia, cuja visita ao país em 1979 influenciou o movimento da psiquiatria democrática e inspirou o Manifesto de Bauru, marco na luta por uma sociedade sem manicômios. A bateria da Portela acompanhará o cortejo, que também recebe os blocos convidados Céu da Terra e Vem Cá Minha Flor.
Império Colonial destaca obra de Bispo do Rosário
O Império Colonial, fundado em 2009 no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (IMASJM), desfila em 10 de fevereiro, às 14h30, partindo da Praça Nossa Senhora de Fátima, em Jacarepaguá. O enredo deste ano celebra Arthur Bispo do Rosário, artista plástico diagnosticado com esquizofrenia que passou quase cinco décadas internado na Colônia Juliano Moreira e se tornou referência na arte contemporânea.
Imagem: Radar da Saúde 9
A diretora do IMASJM, Luciana Cerqueira, informa que pela primeira vez o bloco contará com alas temáticas, sinalizando amadurecimento da agremiação. O enredo foi desenvolvido por Alex de Repix, usuário do Caps Jovelina Pérola Negra. Com apenas 20 integrantes fixos, entre músicos, profissionais de saúde e usuários, o grupo pretende dobrar o público em relação ao baile realizado no ano passado, que reuniu 200 pessoas na Areninha Jacob do Bandolim.
Loucura Suburbana encerra agenda com expectativa de 3 mil foliões
Mais antigo entre os blocos de saúde mental, o Loucura Suburbana volta às ruas do Engenho de Dentro em 12 de fevereiro. Fundada em 2001, a agremiação espera repetir o público superior a 3 mil pessoas registrado em edições anteriores. O samba-enredo “Para o povo poder cantar” foi escolhido entre 25 concorrentes e embala o cortejo que, neste ano, adotou o tema “Baluartes, Território e Loucura”.
A coordenadora-geral Ariadne Mendes explica que “Baluartes” recorda dois músicos que integraram o bloco, enquanto “Território” remete às raízes na comunidade do Engenho de Dentro. A palavra “Loucura” sublinha a importância do grupo para os moradores e para os usuários dos serviços de saúde mental.
Para facilitar a participação, o Loucura Suburbana mantém um barracão onde os foliões podem reservar fantasias gratuitamente. As peças são retiradas no dia do desfile e devolvidas após a apresentação. A agremiação também oferece maquiagem carnavalesca sem custo.
Inclusão durante e além do carnaval
Os quatro blocos reforçam a estratégia defendida pela SMS-Rio de cuidado em liberdade, aproximando os serviços de saúde mental da população e valorizando produções artísticas dos usuários. Ao ocupar vias públicas em diferentes bairros — Bangu, Urca, Jacarepaguá e Engenho de Dentro —, as agremiações ampliam a visibilidade da pauta antimanicomial e convidam a sociedade a compartilhar a festa de forma plural e sem preconceitos.
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