Caso de sarampo em bebê de 6 meses reforça necessidade de ampliar cobertura vacinal

O diagnóstico de sarampo em uma criança de seis meses, confirmado na semana passada na cidade de São Paulo, reabriu a discussão sobre os riscos representados pela queda nas taxas de imunização. A paciente havia viajado com a família à Bolívia em janeiro, país que enfrenta surto da doença desde o ano passado. Por ainda não ter completado um ano de vida, a bebê não tinha recebido a primeira dose da tríplice viral, prevista no calendário do Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças a partir dos 12 meses.

Segundo o esquema nacional de vacinação, o imunizante tríplice viral — que protege contra sarampo, caxumba e rubéola — é aplicado aos 12 meses. Aos 15 meses, ocorre o reforço com a tetra viral, que mantém a proteção contra as três enfermidades e acrescenta defesa contra a catapora. Especialistas explicam que, quando a cobertura populacional está elevada, crianças menores de um ano se beneficiam do chamado “escudo coletivo”, já que o vírus encontra dificuldade para circular entre pessoas previamente imunizadas.

Dados da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) mostram que, em 2023, 92,5% dos bebês receberam a primeira dose da tríplice viral no prazo recomendado. Entretanto, apenas 77,9% completaram o esquema com a segunda dose na idade correta. A redução cria brechas para a reintrodução do vírus e compromete a barreira de proteção em grupos que ainda não podem ser vacinados, como lactentes com menos de 12 meses.

A orientação para quem não possui registro de vacinação varia de acordo com a faixa etária. Para indivíduos de 5 a 29 anos, a recomendação é de duas doses com intervalo mínimo de 30 dias. Entre 30 e 59 anos, basta uma dose. O imunizante é contraindicado apenas para gestantes e pessoas com comprometimento imunológico.

O caso paulista é o primeiro notificado no Brasil em 2026, mas no ano anterior o país registrou 38 infecções, em sua maioria importadas. Mesmo assim, o território nacional mantém o certificado de área livre de sarampo, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2024. O documento atesta a ausência de transmissão sustentada do vírus, embora exija vigilância permanente. O Brasil já havia recebido a mesma certificação em 2016, mas perdeu o status em 2019 após surtos originados por casos vindos do exterior.

O sarampo é reconhecido pela elevada capacidade de transmissão. A vacina possui eficácia considerada esterilizante: além de prevenir a doença, impede que a pessoa se torne portadora e vetor do vírus. Em cenários de baixa cobertura, qualquer contato com viajantes de regiões endêmicas pode desencadear novos focos. Especialistas alertam que não é necessário sair do país para se expor ao risco, pois o fluxo de visitantes vindos de áreas com surto é suficiente para introduzir o agente viral.

A situação no continente americano reforça a preocupação. Em 2023, foram confirmados 14.891 casos de sarampo em 14 países, com 29 mortes. Até 5 de março deste ano, já haviam sido somadas 7.145 infecções, quase metade do total de todo o ano anterior, com destaque para México, Estados Unidos e Guatemala. O levantamento aponta que a maior parte dos doentes não havia sido vacinada, sobretudo crianças menores de um ano.

Caso de sarampo em bebê de 6 meses reforça necessidade de ampliar cobertura vacinal - Radar da Saúde

Imagem: Radar da Saúde

Apesar de algumas percepções equivocadas, o sarampo não é considerado uma enfermidade benigna. Em média, ocorrem uma morte a cada mil casos, embora números recentes indiquem proporção superior. As complicações mais comuns incluem pneumonia e manifestações neurológicas, como encefalite. Além disso, a infecção provoca, por até seis meses, supressão do sistema imunológico, aumentando a suscetibilidade a outras doenças oportunistas e agravos secundários.

Os sintomas iniciais costumam aparecer de forma abrupta e envolvem febre alta, manchas avermelhadas que se espalham pelo corpo, tosse, coriza, conjuntivite e mal-estar geral. Diante de sinais sugestivos, autoridades sanitárias recomendam procurar imediatamente um serviço de saúde, comunicar histórico de viagens e, quando possível, apresentar carteira de vacinação.

Para conter a circulação do vírus, o Programa Nacional de Imunizações mantém vacinas disponíveis gratuitamente nos postos de saúde durante todo o ano. A Sbim reforça a necessidade de atualização do cartão vacinal, sobretudo antes de viagens internacionais. A manutenção de taxas de cobertura superiores a 95% em todos os municípios é apontada como a estratégia mais eficaz para impedir que casos importados evoluam para surtos comunitários.

Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

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