Cientista brasileiro alerta que plataformas digitais e IA criam “zumbis digitais”

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis declarou que o uso intensivo de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial (IA) ameaça reduzir a capacidade cognitiva das pessoas, gerando milhões de “zumbis digitais”. O especialista estuda o cérebro humano desde 1989 e defende que a inteligência é uma característica exclusiva de organismos biológicos, impossível de ser reproduzida por máquinas.

Adaptação do cérebro ao ambiente digital

Nicolelis sustenta que o cérebro tem elevada plasticidade e tende a se ajustar ao contexto externo para garantir a sobrevivência. Se a lógica do cotidiano passar a ser totalmente digital, o órgão pode funcionar conforme os parâmetros das máquinas, nivelando por baixo processos de criatividade e raciocínio.

Segundo o neurocientista, não há indícios de que algoritmos venham a “pensar” como humanos. O perigo real, afirma, é que a população passe a pensar como computadores, limitando a complexidade natural do pensamento. Estudos citados pelo pesquisador, incluindo um levantamento recente do MIT, apontam alterações na conectividade cerebral associadas ao uso constante de telas e assistentes baseados em IA.

Impacto na ciência, no trabalho e na propriedade intelectual

O brasileiro também apontou a proliferação de artigos científicos falsos produzidos com auxílio de modelos de linguagem. A pressão por publicação, combinada com ferramentas que “alucinam” dados, estaria gerando descobertas inexistentes e dificultando a revisão por pares.

Outro ponto levantado envolve o trabalho de classificação de conteúdos para treinamento de grandes modelos. Milhões de pessoas em regiões com alta vulnerabilidade social recebem remuneração mínima para rotular imagens e textos, enquanto empresas faturam valores bilionários. Para Nicolelis, a situação lembra os primórdios da Revolução Industrial em termos de exploração laboral.

Ele ainda criticou o uso não autorizado de obras intelectuais em bases de dados. Obras próprias, que demandaram quatro décadas de pesquisa, foram identificadas em corpora de treinamento de IA sem qualquer licenciamento, revela o cientista.

Projetos de reabilitação neurológica

Reconhecido por desenvolver interfaces cérebro-máquina capazes de devolver mobilidade a pessoas com lesão medular, Nicolelis agora lidera a iniciativa “Treat One Billion”. O objetivo é criar uma rede global de institutos de pesquisa e hospitais para oferecer terapias não invasivas a até um bilhão de pacientes com doenças como Parkinson, epilepsia e Alzheimer. A proposta utiliza conexões cerebrais externas, dispensando implantes e reduzindo custos.

Cientista brasileiro alerta que telas e IA criam “zumbis digitais” - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Para viabilizar o projeto, o neurocientista busca parcerias internacionais e defende regulamentações que protejam trabalhadores, artistas e cientistas diante do avanço da IA.

No cenário atual, Nicolelis reforça que a inteligência coletiva humana continua sendo o recurso mais poderoso para enfrentar desafios tecnológicos e de saúde. A mensagem, afirma, é apostar na educação crítica e na pesquisa científica responsável.

Para conhecer estratégias de proteção cognitiva e hábitos saudáveis que podem ajudar a reduzir o tempo de exposição às telas, visite a seção “Saúde e Bem-Estar da Família”.

Crédito da imagem: ONU News

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