Dengue como ponto de partida
O ministério informou que as ações conjuntas da coalizão envolverão compartilhamento de informações epidemiológicas, estímulo a estudos multicêntricos e facilitação de transferência de tecnologia para a fabricação de vacinas e testes diagnósticos. Os participantes pretendem ainda discutir modelos de financiamento que assegurem preços acessíveis e produção sustentável, reduzindo a dependência de importações em momentos de alta demanda.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) será responsável pelo secretariado executivo do grupo. A instituição aposta na experiência acumulada em cooperação com países africanos e latino-americanos para apoiar a criação de capacidades científicas, tecnológicas e, quando viável, industriais. A meta é estabelecer redes regionais que integrem universidades, centros de pesquisa, empresas públicas e privadas, visando acelerar o acesso a soluções em saúde.
Produção nacional de Tacrolimo
Durante o mesmo evento, o Ministério da Saúde confirmou o início da produção 100% nacional do imunossupressor Tacrolimo, utilizado para evitar a rejeição de órgãos transplantados. A transferência tecnológica completa ocorreu em parceria com a Índia. Atualmente, cerca de 120 mil pacientes recebem o medicamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com custo mensal entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por pessoa. Como o uso é contínuo, o abastecimento regular é considerado essencial para a sobrevida dos transplantados.
Segundo a pasta, a fabricação local assegurará o fornecimento mesmo diante de interrupções de mercado provocadas por conflitos, pandemias ou barreiras logísticas. O governo avalia que a internalização do processo produtivo representará economia a médio prazo, ao reduzir gastos com importação e possibilitar negociações mais favoráveis de matéria-prima.
Novo centro de vacinas de RNA mensageiro
Outra medida anunciada foi a criação de um centro de competência para desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro (mRNA) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A plataforma de mRNA utiliza apenas o código genético do agente infeccioso para induzir a produção de anticorpos pelo organismo, dispensando o uso de patógenos enfraquecidos ou inativados, método empregado em vacinas tradicionais.
O Brasil já possuía dois projetos nessa área, conduzidos pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, que juntos receberam cerca de R$ 150 milhões em recursos federais. Com o novo centro mineiro, serão investidos mais R$ 65 milhões, ampliando para três o número de instituições públicas aptas a pesquisar e produzir imunizantes de mRNA no país. De acordo com o Ministério da Saúde, essa estrutura reforça a capacidade nacional de responder rapidamente a futuras pandemias e de adaptar a tecnologia a outras doenças, inclusive às que registram maior incidência nos trópicos.
Os projetos de mRNA integram a estratégia mais ampla do governo de estimular cadeias produtivas locais, reduzir a dependência externa e garantir acesso equitativo a tecnologias de ponta. A expectativa é que a rede formada pelas três instituições desenvolva competências em etapas como síntese de nucleotídeos, formulação de nanopartículas lipídicas e produção em escala, aproximando-se dos principais polos internacionais.
Ao estabelecer a dengue como primeiro eixo da Coalizão Global e ao anunciar a fabricação nacional de medicamentos e o avanço em vacinas de mRNA, o Ministério da Saúde sinaliza intenção de combinar ações emergenciais de controle de doenças com políticas de longo prazo voltadas à autonomia tecnológica. A pasta sustenta que iniciativas desse tipo contribuem para fortalecer sistemas de saúde, impulsionar a inovação e proteger populações vulneráveis em cenários de crise.
Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil