RADAR DA SAÚDE

Conflitos e fragilidades concentram a maior parte das mortes maternas, aponta OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou que a maioria das mortes maternas no planeta ocorre em países marcados por conflitos armados, crises prolongadas ou sistemas de saúde altamente fragilizados. A constatação reforça a relação direta entre instabilidade sociopolítica, precariedade dos serviços públicos e o aumento de riscos para gestantes e puérperas.

Em regiões onde a guerra ou a desorganização institucional sobrecarregam a infraestrutura sanitária, clínicas maternas e serviços de pré-natal têm operado sob pressão constante. Profissionais de saúde relatam falta de equipamentos, insumos e até mesmo de condições básicas de segurança para manter atendimentos regulares. Como resultado, procedimentos essenciais, que em ambientes estáveis costumam prevenir complicações graves, deixam de ser oferecidos com a frequência e a qualidade necessárias.

Diante desse cenário, o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa) atua para reduzir impactos imediatos sobre mulheres em idade reprodutiva. A agência tem distribuído suprimentos médicos considerados vitais, como kits de parto limpo, medicamentos para controle de hemorragias e anticoncepcionais. Além disso, trabalha na reativação de serviços de planejamento familiar que estavam suspensos desde o início de conflitos em diversos territórios. A retomada desses programas pretende assegurar que mulheres e adolescentes tenham acesso a orientações sobre saúde sexual e reprodutiva, mesmo em contextos de emergência.

Segundo o Unfpa, um dos objetivos centrais da estratégia é evitar 1,5 milhão de gestações não planejadas e 750 mil abortos inseguros. A avaliação da agência indica que, em contextos instáveis, a combinação de colapso dos serviços de saúde com a ruptura de redes comunitárias expõe meninas e mulheres a riscos adicionais, como violência sexual, casamentos forçados e falta de informação sobre métodos contraceptivos. A ausência de assistência qualificada durante e após a gravidez agrava ainda mais o quadro, elevando a probabilidade de morte ou de sequelas permanentes.

Nesse esforço, foi criado o Projeto Acesso e Escolha, voltado à ampliação da cobertura de saúde reprodutiva. A iniciativa estabelece como meta manter a taxa de mortalidade materna acima dos 25%, de acordo com os parâmetros definidos no documento de referência. O programa direciona atenção especial a adolescentes e populações rurais, grupos que, segundo o levantamento da OMS, enfrentam barreiras adicionais para chegar a unidades de saúde. Entre elas estão distâncias longas, falta de transporte seguro, custos com deslocamento e restrições socioculturais que limitam a autonomia feminina.

O relatório destaca que, em áreas conflagradas, a escassez de profissionais qualificados é outro obstáculo crítico. Muitos médicos, enfermeiros e parteiras deixam as zonas de risco ou não conseguem atuar por falta de insumos básicos. Com quadros reduzidos, as unidades de saúde que permanecem abertas precisam priorizar atendimentos de urgência, relegando consultas de rotina e procedimentos preventivos a segundo plano. Isso compromete a identificação precoce de hipertensão, diabetes gestacional ou infecções, fatores que, se não tratados a tempo, podem evoluir para complicações fatais durante o parto.

A interrupção de campanhas de vacinação, essenciais para proteger mães e recém-nascidos, também foi apontada como elemento de preocupação. Sem esquemas completos contra tétano, rubéola ou difteria, aumentam as chances de infecções graves no período perinatal. O documento observa que epidemias podem surgir rapidamente em ambientes superlotados, agravando a situação de hospitais e postos de saúde já sobrecarregados.

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Imagem: Internet

Para reverter essa tendência, a OMS recomenda a integração imediata de serviços de saúde materna em respostas humanitárias. A agência sugere, por exemplo, a instalação de unidades móveis de atendimento, o treinamento acelerado de profissionais locais e a criação de cadeias de suprimentos capazes de funcionar mesmo em áreas isoladas por confrontos. Outra indicação é a utilização de soluções tecnológicas, como registros eletrônicos portáteis, que permitem acompanhar consultas e exames de modo mais eficiente.

O relatório também enfatiza a importância de dados confiáveis para orientar políticas públicas. Nos países afetados por conflitos, a coleta regular de estatísticas sobre nascimentos, mortes e complicações obstétricas costuma ser interrompida, dificultando a identificação de áreas mais críticas. A ausência de informações detalhadas compromete o planejamento de intervenções e a alocação de recursos, o que perpetua ciclos de vulnerabilidade.

Embora as ações de agências internacionais aliviem parte da pressão sobre sistemas de saúde em colapso, a OMS avalia que apenas soluções estruturais poderão reduzir de forma consistente as mortes maternas nesses ambientes. Entre os elementos considerados essenciais estão estabilidade política, financiamento sustentado para o setor e inclusão de serviços de saúde reprodutiva nos planos nacionais de reconstrução.

Crédito da imagem: OMS