Segundo Monteiro, antes da NOVA o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas costumava ser explicado principalmente por escolhas individuais. Para o pesquisador, o problema está no atual sistema alimentar, que favorece o consumo de produtos com alto nível de processamento, ricos em sal, gorduras e açúcares.
O episódio destaca formas de identificar um ultraprocessado, apresenta relatos de quem reduziu o consumo desses itens e mostra o trabalho de uma escola em Águas Lindas de Goiás, que, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, prioriza refeições preparadas com alimentos frescos, aliando oferta de comida de verdade a atividades de educação alimentar.
Os custos associados a esses produtos também entram em pauta. Levantamento da Fiocruz Brasília em conjunto com o Nupens indica gasto superior a R$ 10 bilhões anuais para o sistema de saúde e para a economia brasileira devido a doenças ligadas ao consumo de ultraprocessados. O pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz, calcula que até 57 mil mortes poderiam ser evitadas por ano caso tais produtos fossem retirados da dieta.
Frente a esses números, entidades científicas e organizações da sociedade civil defendem medidas fiscais mais rigorosas. A reforma tributária promulgada em dezembro de 2023 criou o imposto seletivo para desestimular itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente, mas deixou de fora a maior parte dos ultraprocessados. Apenas bebidas açucaradas, como refrigerantes, receberão a sobretaxa, cuja alíquota ainda depende de lei complementar a ser aprovada pelo Congresso. A transição do novo modelo tributário começou em 2026 e seguirá até 2033.
Para Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, a proposta é manter alíquota zero para um conjunto de alimentos saudáveis e aplicar percentuais maiores sobre produtos classificados como não saudáveis. Exemplos internacionais, como México e Chile, servem de referência para a adoção de impostos mais altos sobre bebidas açucaradas no Brasil.
Além da tributação, especialistas apoiam estratégias de educação alimentar e de regulação da publicidade. Paula Johns, diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, observa que alegações de fortificação com vitaminas em biscoitos recheados podem transmitir ao consumidor a impressão de que esses itens são benéficos, o que reforça a necessidade de alertas claros sobre o grau de processamento.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também chama atenção para os efeitos sobre o público infantil. Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, aponta que o consumo precoce de ultraprocessados compromete o desenvolvimento dos sistemas nervoso, imunológico e digestivo, aumentando o risco de doenças crônicas ao longo da vida.
O programa da TV Brasil apresenta ainda casos de sucesso na redução do consumo desses produtos. Um deles é o do estudante brasiliense Luan Bernardo Marques Gama, de 13 anos, que, após diagnóstico de pré-diabetes, ingressou no Programa de Atenção à Criança e ao Adolescente com Sobrepeso ou Obesidade do Hospital da Criança de Brasília. Com apoio da família e orientação nutricional, Luan substituiu balas, chocolates, sucos de caixinha e biscoitos por alimentos frescos, além de incorporar atividades físicas, obtendo alta em um ano.
Ao reunir evidências científicas, experiências de políticas públicas e relatos de consumidores, o episódio de Caminhos da Reportagem pretende ampliar o debate sobre a presença dos ultraprocessados na dieta da população e reforçar a importância de ações combinadas de tributação, regulação de marketing e educação para conter os efeitos adversos desses produtos na saúde coletiva.
Crédito da imagem: TV Brasil