A confirmação da doença deve ser feita por neurologista – e, em alguns casos, por neuro-oftalmologista – com apoio de exames específicos. Entretanto, a oferta de especialistas em todo o país é limitada. Segundo Daniele Americano, presidente da NMO Brasil e diagnosticada em 2012, essa carência provoca longos percursos até o diagnóstico correto, etapa crucial para evitar novos surtos e perda funcional.
Barreiras no Sistema Único de Saúde
Além da dificuldade de reconhecimento clínico, os pacientes encontram obstáculos para receber medicação pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A entidade calcula que nove em cada dez doentes precisam recorrer à Justiça para ter acesso às terapias indicadas. Os tratamentos incluem opções off label – fármacos sem registro específico para NMO na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – e on label, que já têm indicação aprovada, mas não foram incorporados à rede pública.
Entre os medicamentos recomendados estão satralizumabe (Enspryng), inebilizumabe (Uplizna) e ravulizumabe (Ultomiris). De acordo com o Ministério da Saúde, os dois primeiros foram avaliados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em 2024 e 2025, respectivamente, mas receberam parecer negativo sob critérios de custo-efetividade. O governo afirmou não ter recebido solicitação de análise para o ravulizumabe.
O ministério informou ainda que elabora um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico para neuromielite óptica, reunindo evidências clínicas e econômicas que embasarão novas decisões da Conitec. Atualmente, o cuidado oferecido na rede pública se concentra no controle de sintomas, reabilitação e manutenção da qualidade de vida, com acompanhamento em neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e apoio psicológico.
Necessidade de atendimento multidisciplinar
Para Daniele Americano, o manejo adequado exige equipe multiprofissional que inclua psicólogo, fisioterapeuta e assistente social. Segundo ela, muitos pacientes perdem mobilidade e necessitam de fisioterapia contínua para evitar atrofias. Já o suporte psicológico e social torna-se indispensável quando a doença interrompe atividades produtivas, impactando finanças familiares.
Mobilização de pacientes
Em busca de informação confiável, Daniele fundou a NMO Brasil após enfrentar sucessivos diagnósticos incorretos. A entidade, formalizada em 2022, atua na orientação de pacientes e na promoção de políticas públicas. Um projeto de lei que concede benefícios previdenciários às pessoas com NMO aguarda análise na Comissão de Assuntos Sociais do Senado.
Outro marco obtido pela associação foi a instituição, em 2023, do Dia Nacional de Conscientização sobre a Neuromielite Óptica, celebrado em 27 de março. A data tornou o Brasil o primeiro país a adotar oficialmente uma campanha dedicada ao tema. Neste ano, organizações internacionais aderiram ao mesmo calendário para criar o primeiro Dia Mundial de Conscientização da NMO, ampliando o movimento global.
Exposição no Rio de Janeiro
Para ampliar a visibilidade da doença, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) recebe até 3 de abril a mostra “Neuromielite Óptica – Você não Vê, mas Eu Sinto”, no Palácio Tiradentes, centro da capital fluminense. A exposição apresenta relatos de nove mulheres e um homem diagnosticados em diferentes regiões do país, destacando sintomas invisíveis, como dores neuropáticas, e dificuldades de acesso a medicamentos.
O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h, com entrada gratuita. Há recursos de audiodescrição para visitantes com deficiência visual e acesso para cadeirantes pela Rua Dom Manuel. A iniciativa é da Frente Parlamentar de Doenças Raras da Alerj, da Subdiretoria-Geral de Cultura da Casa e da NMO Brasil.
Avanço lento, mas contínuo
Segundo o Ministério da Saúde, o número de centros especializados em doenças raras no país subiu de 23, em 2022, para 51 na atualidade. Ainda assim, pacientes e especialistas apontam que a agilidade no diagnóstico da neuromielite óptica depende de maior qualificação de profissionais, oferta regular de testes laboratoriais específicos e incorporação de terapias comprovadas.
Enquanto essas medidas não avançam, o desconhecimento permanece como um dos principais fatores de atraso terapêutico. Para a comunidade de pessoas acometidas pela NMO, disseminar informação continua sendo estratégia essencial na redução de sequelas e na melhoria da qualidade de vida.
Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil