O espaço do Salgueiro integra uma rede de 84 hortas comunitárias apoiadas pela Prefeitura do Rio. Criado há cerca de duas décadas, o programa Hortas Cariocas fornece assistência técnica, insumos e acompanhamento periódico. De acordo com a Secretaria Municipal de Ambiente e Clima, essas hortas produziram 74 toneladas de alimentos em 2025; o núcleo do Salgueiro respondeu por aproximadamente 700 quilos desse total.
O quintal da casa de Vera, situado próximo às bordas do Parque Nacional da Tijuca, contrasta com a pouca vegetação presente em muitas favelas cariocas. Cercada de árvores, ela cultiva variedades que servem de mudas para vizinhos e para a própria horta coletiva. Quando alguém precisa de um ramo específico, como boldo, saião ou ora-pro-nóbis, bate à porta da aposentada, que costuma doar pequenas porções. A prática ajuda a difundir o plantio em imóveis que, por limitação de espaço, não comportam canteiros maiores.
No ponto de cultivo comunitário, a diversidade impressiona quem está acostumado a prateleiras com poucas opções. Moradores destacam que, além de alface, cheiro-verde e rúcula, encontram plantas alimentícias não convencionais, a exemplo de caruru, taioba, alemirão e serralha. A variedade, segundo o grupo, aproxima a comunidade de hábitos alimentares de gerações passadas, quando cada família mantinha um pequeno jardim em casa.
O terreno onde hoje se ergue a plantação passou por desapropriação após avaliação de risco geológico. Antigas moradias erguidas em encosta íngreme foram removidas, e a área ficou coberta por entulho e lixo. Organizados, os moradores iniciaram a limpeza e transformaram o espaço em canteiros produtivos. Além de hortaliças, há frutíferas como limão e uma variedade pouco difundida de laranja de polpa avermelhada, conhecida como laranja sanguínea.
Imagem: Tânia Rêgo
Entre os voluntários, Walace Gonçalves de Oliveira, de 66 anos, conhecido como Tio Dadá, circula diariamente com chapéu e enxada. Ele destaca que profissionais de saúde da unidade básica próxima costumam recomendar aos pacientes a busca por verduras e ervas na horta, sobretudo quando há indicação específica de consumo de alimentos frescos e livres de agrotóxicos.
Segundo a prefeitura, as hortas urbanas contribuem para reduzir ocupações irregulares em terrenos ociosos e impulsionam a inclusão social ao oferecer capacitação em agricultura urbana, trabalho remunerado e alimentação sem transgênicos. A Secretaria Municipal de Ambiente e Clima afirma manter fornecimento contínuo de sementes e orientação técnica para os coletivos, que podem retirar novos insumos conforme a necessidade.
Para os participantes do Morro do Salgueiro, o plantio supera a função alimentar. Ele atua como ferramenta de preservação de saberes populares e de fortalecimento de vínculos comunitários. Entre a rega, o preparo do solo e a colheita, os cuidadores partilham histórias antigas, trocam receitas e ensinam crianças a reconhecer espécies nativas. Ao mesmo tempo, demonstram que pequenos lotes, quando bem aproveitados, conseguem oferecer produtos saudáveis, reforçar a renda e promover cidadania em territórios vulneráveis.
Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil