Apesar dos resultados promissores observados em outros países, o Brasil ainda não dispõe de uma recomendação oficial para rastreamento do câncer de pulmão. A inexistência de orientação normativa justifica a necessidade de estudos locais que confirmem a efetividade e a viabilidade econômica do modelo dentro da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS). O Inca pretende, portanto, testar o novo protocolo em ambiente real, medir adesão de pacientes, identificar possíveis barreiras logísticas e, se for comprovada a eficácia, subsidiar futura expansão em escala nacional.
Os critérios de inclusão dos participantes seguirão o consenso elaborado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. O documento recomenda o rastreamento com TCBD para indivíduos de 50 a 80 anos que fumem ou tenham deixado de fumar há no máximo 15 anos, com histórico de consumo equivalente a 20 cigarros por dia durante duas décadas (20 maços-ano). Pessoas que atenderem a esses requisitos e aceitarem participar do estudo serão submetidas ao exame de imagem em unidades da rede municipal.
Em caso de diagnóstico positivo, os pacientes serão encaminhados ao Hospital do Câncer I, referência do Inca para tratamento oncológico de alta complexidade no Rio de Janeiro. Ali serão oferecidas todas as etapas necessárias, da confirmação histopatológica ao acompanhamento terapêutico, dentro dos protocolos do SUS. O processo permitirá avaliar não apenas o desempenho da fase de rastreamento, mas também a capacidade de resposta da rede assistencial para absorver diagnósticos em estágios mais precoces.
O estudo está sob coordenação do médico epidemiologista Arn Migowski, do Inca. A perspectiva é que a detecção antecipada de tumores, associada a ações de cessação do fumo, impacte diretamente os indicadores de sobrevida. Atualmente, o Atlas de Mortalidade do Inca registra 32.465 óbitos por câncer de pulmão e brônquios em 2024, número superior à soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849) no mesmo período. A taxa de sobrevida em cinco anos permanece baixa, em torno de 5,2%, reflexo do diagnóstico tardio observado em 84% dos casos.
Para a AstraZeneca, financiadora da pesquisa, o projeto ilustra o potencial de parcerias entre os setores público e privado na busca de soluções para problemas complexos de saúde pública. A empresa atua na oferta de medicamentos oncológicos, mas pretende ampliar sua participação em iniciativas que abordem a doença de forma integral, desde a prevenção até o tratamento.
Especialistas ligados a entidades civis alertam que o consumo de dispositivos eletrônicos de nicotina, conhecidos como vapes, tem provocado aumento recente na prevalência do tabagismo, especialmente na faixa etária de 18 a 24 anos. A mudança no perfil do fumante impõe desafios adicionais às campanhas de prevenção e reforça a necessidade de estratégias de comunicação específicas para o público jovem, de modo a evitar novos casos da doença no futuro.
As estimativas do Inca apontam que o Brasil pode registrar, entre 2026 e 2028, em torno de 781 mil novos diagnósticos de câncer por ano. Diante desse cenário, iniciativas que aliem rastreamento, cessação do tabagismo e acesso rápido ao tratamento são consideradas fundamentais para reduzir a carga da enfermidade e melhorar os indicadores de saúde pública.
Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil