Inca inicia estudo para viabilizar rastreamento de câncer de pulmão no SUS

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) deu início, nesta quarta-feira, 1º de abril de 2026, a um estudo que pretende avaliar a viabilidade de implantar um programa de rastreamento de câncer de pulmão na rede pública de saúde. Desenvolvida em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e financiada pela biofarmacêutica AstraZeneca, a investigação busca gerar evidências que subsidiem a criação de uma diretriz nacional para detecção precoce da doença, com potencial de reduzir a mortalidade associada ao tumor que mais mata no país.

Com duração prevista de dois anos, a pesquisa será conduzida por equipes do Inca e envolverá, inicialmente, um mínimo de 397 participantes, número que poderá ser ampliado conforme a evolução do projeto. Os voluntários serão selecionados entre usuários do Programa de Cessação de Tabagismo da secretaria municipal, iniciativa que hoje reúne cerca de 50 mil inscritos. A escolha desse público leva em consideração que aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão guardam relação direta com o consumo de derivados de tabaco.

O protocolo de rastreamento utilizará a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD), tecnologia que, segundo dados do Jornal Brasileiro de Pneumologia, pode diminuir em 20% a mortalidade por câncer de pulmão quando aplicada de forma isolada. Quando combinada a estratégias de abandono do tabagismo, essa redução chega a 38%. Experiências internacionais mostram ainda que, em populações de alto risco, a TCBD tem capacidade de modificar o estágio de diagnóstico: a proporção de casos identificados em fases avançadas cai de cerca de 90% para 30%, cenário que amplia as chances de tratamento curativo.

Apesar dos resultados promissores observados em outros países, o Brasil ainda não dispõe de uma recomendação oficial para rastreamento do câncer de pulmão. A inexistência de orientação normativa justifica a necessidade de estudos locais que confirmem a efetividade e a viabilidade econômica do modelo dentro da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS). O Inca pretende, portanto, testar o novo protocolo em ambiente real, medir adesão de pacientes, identificar possíveis barreiras logísticas e, se for comprovada a eficácia, subsidiar futura expansão em escala nacional.

Os critérios de inclusão dos participantes seguirão o consenso elaborado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. O documento recomenda o rastreamento com TCBD para indivíduos de 50 a 80 anos que fumem ou tenham deixado de fumar há no máximo 15 anos, com histórico de consumo equivalente a 20 cigarros por dia durante duas décadas (20 maços-ano). Pessoas que atenderem a esses requisitos e aceitarem participar do estudo serão submetidas ao exame de imagem em unidades da rede municipal.

Em caso de diagnóstico positivo, os pacientes serão encaminhados ao Hospital do Câncer I, referência do Inca para tratamento oncológico de alta complexidade no Rio de Janeiro. Ali serão oferecidas todas as etapas necessárias, da confirmação histopatológica ao acompanhamento terapêutico, dentro dos protocolos do SUS. O processo permitirá avaliar não apenas o desempenho da fase de rastreamento, mas também a capacidade de resposta da rede assistencial para absorver diagnósticos em estágios mais precoces.

O estudo está sob coordenação do médico epidemiologista Arn Migowski, do Inca. A perspectiva é que a detecção antecipada de tumores, associada a ações de cessação do fumo, impacte diretamente os indicadores de sobrevida. Atualmente, o Atlas de Mortalidade do Inca registra 32.465 óbitos por câncer de pulmão e brônquios em 2024, número superior à soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849) no mesmo período. A taxa de sobrevida em cinco anos permanece baixa, em torno de 5,2%, reflexo do diagnóstico tardio observado em 84% dos casos.

Inca inicia estudo para viabilizar rastreamento de câncer de pulmão no SUS - Radar da Saúde 13

Imagem: Radar da Saúde 13

Para a AstraZeneca, financiadora da pesquisa, o projeto ilustra o potencial de parcerias entre os setores público e privado na busca de soluções para problemas complexos de saúde pública. A empresa atua na oferta de medicamentos oncológicos, mas pretende ampliar sua participação em iniciativas que abordem a doença de forma integral, desde a prevenção até o tratamento.

Especialistas ligados a entidades civis alertam que o consumo de dispositivos eletrônicos de nicotina, conhecidos como vapes, tem provocado aumento recente na prevalência do tabagismo, especialmente na faixa etária de 18 a 24 anos. A mudança no perfil do fumante impõe desafios adicionais às campanhas de prevenção e reforça a necessidade de estratégias de comunicação específicas para o público jovem, de modo a evitar novos casos da doença no futuro.

As estimativas do Inca apontam que o Brasil pode registrar, entre 2026 e 2028, em torno de 781 mil novos diagnósticos de câncer por ano. Diante desse cenário, iniciativas que aliem rastreamento, cessação do tabagismo e acesso rápido ao tratamento são consideradas fundamentais para reduzir a carga da enfermidade e melhorar os indicadores de saúde pública.

Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

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