Combate ao câncer do colo do útero depende de vacinação, rastreamento e comunicação ampla, avalia pesquisadora
O mundo dispõe hoje de vacinas, testes de detecção e tratamentos capazes de tornar o câncer do colo do útero o primeiro tumor eliminável da história, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, em declaração feita nesta terça-feira. Apesar dos avanços tecnológicos, a doença provoca cerca de 300 mil óbitos por ano e afeta principalmente mulheres jovens, com idade inferior a 45 anos, sobretudo em países de renda baixa e média.
A diretora do Laboratório de Inovação do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e professora da Faculdade de Medicina da USP, Luisa Lina Villa, conversou com a ONU News durante o mês dedicado à conscientização sobre o tema. Estudiosa do papilomavírus humano (HPV) há quatro décadas e participante dos primeiros ensaios clínicos de imunização, ela defende um investimento maciço em comunicação para traduzir o conhecimento científico em linguagem acessível, superar a desinformação e ampliar a cobertura vacinal.
Brasil registra 17 mil novos casos por ano
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o país contabiliza aproximadamente 17 mil novos diagnósticos anuais, o que corresponde a incidência de 17 a 18 casos por 100 mil mulheres. O índice é quase três vezes superior ao observado em nações desenvolvidas, onde as taxas ficam abaixo de seis por 100 mil. A situação se agrava nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que concentram menor acesso a serviços de prevenção e onde o diagnóstico costuma ocorrer em estágios avançados, limitando as chances de cura.
Quase todos os episódios de câncer de colo uterino estão associados à infecção pelos tipos de alto risco do HPV. A vacina disponível na rede pública previne a infecção viral e, por consequência, reduz o surgimento de lesões precursoras e tumores não apenas no colo do útero, mas também no ânus, na vulva, na vagina, no pênis e na orofaringe. Evidências acumuladas em diferentes países mostram elevada eficácia na redução de infecções e de mortalidade.
Cobertura vacinal enfrenta queda
Embora a imunização tenha sido incorporada ao Programa Nacional de Imunizações, a cobertura contra o HPV recuou nos últimos anos. Segundo Luisa Villa, parte da população mantém dúvidas sobre supostos eventos adversos relatados em redes sociais e veículos de comunicação, mesmo após estudos demonstrarem que esses episódios não guardam relação causal com a vacina. A pesquisadora cita exemplos de diminuição abrupta da adesão na Colômbia e no Japão, onde boatos semelhantes se espalharam.
Para reverter o quadro, ela sustenta ser necessário “falar a língua das pessoas”, explicando riscos e benefícios de forma clara, contínua e baseada em evidências. “Sem engajamento social e informação confiável, não conseguiremos atingir as metas globais”, alertou.
Públicos prioritários e ampliação prevista
No Brasil, o esquema vacinal contempla meninas e meninos de 9 a 14 anos, faixa etária anterior ao início da vida sexual, quando ainda não houve exposição ao vírus. O Ministério da Saúde também oferece o imunizante a pessoas que vivem com HIV, pacientes oncológicos e outros grupos considerados de alto risco. De acordo com Villa, a pasta estuda estender a proteção a vítimas de violência sexual.
Imagem: Internet
Em âmbito mundial, 162 países já incorporaram a vacina contra o HPV em seus programas nacionais, atendendo à recomendação da OMS para atingir, até 2030, 90% de cobertura entre meninas de até 15 anos, 70% de rastreamento em mulheres de 35 e 45 anos, e tratamento de 90% das lesões pré-cancerosas.
Rastreamento continua essencial
Para mulheres que não receberam a vacina, o rastreamento permanece fundamental. Quando identificada em fase inicial, a doença costuma ser tratada com procedimentos de baixa complexidade e apresenta alto índice de cura. No entanto, em áreas com infraestrutura limitada, muitas pacientes só chegam ao sistema de saúde quando o tumor já avançou para estágios que exigem cirurgias radicais, radioterapia e quimioterapia, elevando custos e reduzindo sobrevida.
Villa reforça que a eliminação do câncer de colo do útero pressupõe uma abordagem abrangente. “Precisamos garantir prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento, inclusive paliativo, para que nenhuma mulher seja excluída, da adolescente à idosa”, afirmou.
Ferramentas disponíveis, desafio humano
O posicionamento da OMS indica que a parte científica do problema está resolvida: há tecnologia suficiente para impedir que o HPV cause milhares de mortes. O obstáculo central, segundo a especialista, é social – envolve investimento sustentado em campanhas educativas, fortalecimento dos serviços de saúde e combate à desinformação. Sem essas ações, a promessa de transformar o câncer do colo do útero no primeiro tumor erradicado permanecerá apenas no campo das possibilidades.
Crédito da imagem: ONU News