Os autores destacam que o padrão alimentar no país se deteriorou nas últimas décadas, marcado pela redução da ingestão de alimentos in natura e pelo crescimento do consumo de itens processados. Paralelamente, houve aumento na prevalência de uso de álcool e de inatividade física. O tabagismo, por outro lado, é o único fator de risco cuja ocorrência vem diminuindo.
Outro elemento que sustenta o índice de mortalidade é o diagnóstico tardio. Dados analisados pelo grupo mostram que aproximadamente 65% dos casos são identificados em estágios avançados, quando as chances de tratamento eficaz caem. O atraso decorre tanto da evolução silenciosa da doença, que costuma apresentar sintomas apenas em fases mais agressivas, quanto de barreiras de acesso a exames e serviços de saúde, especialmente nas áreas remotas e menos desenvolvidas.
Diante desse quadro, os pesquisadores recomendam a adoção progressiva de um programa nacional de rastreamento, que inclua exames preventivos capazes de detectar tumores ou lesões precursoras antes do aparecimento de sinais clínicos. A proposta envolve reduzir desigualdades regionais e garantir assistência adequada desde o diagnóstico até o tratamento, de forma a interromper a trajetória de crescimento das mortes.
O artigo também estimou os custos sociais e econômicos associados à mortalidade por câncer colorretal. Entre 2001 e 2030, as perdas totais de anos potenciais de vida somam 12,6 milhões. Em média, mulheres que morreram por essa causa deixaram de viver 21 anos, enquanto os homens perderam 18 anos de expectativa. No campo econômico, o estudo calculou Int$ 22,6 bilhões em perdas de produtividade no período. O dólar internacional (Int$) é uma unidade que ajusta diferenças no poder de compra entre países.
A análise regional revela contrastes. Sudeste e Sul, regiões mais populosas e com maior proporção de idosos, concentram aproximadamente três quartos das mortes projetadas, resultando no maior impacto econômico absoluto. Entretanto, Norte e Nordeste devem registrar os maiores aumentos relativos nos índices de mortalidade e nas perdas de produtividade. Para os pesquisadores, indicadores socioeconômicos menos favoráveis e infraestrutura de saúde mais limitada nessas áreas explicam boa parte da escalada. Além disso, populações do Norte e Nordeste vêm incorporando gradativamente padrões de comportamento que já eram comuns no Sul e Sudeste, como dietas ricas em produtos industriais e sedentarismo.
Os autores reforçam que políticas públicas voltadas à promoção de estilos de vida saudáveis permanecem desafiadoras, mas constituem estratégia fundamental para prevenir e controlar o câncer colorretal, outras neoplasias e doenças crônicas não transmissíveis. Ações sugeridas incluem incentivo à prática regular de atividade física, redução do consumo de alimentos ultraprocessados, estímulo à alimentação baseada em frutas, legumes e verduras, além de campanhas para uso responsável de álcool.
Mesmo diante das projeções desfavoráveis, o estudo observa que a mortalidade pode ser mitigada por meio de intervenções coordenadas. Entre elas, destacam-se a expansão de programas de rastreamento, a qualificação da detecção precoce em casos sintomáticos, o acesso oportuno a terapias e a diminuição das disparidades no sistema de saúde. Para os pesquisadores, tais medidas tendem a reduzir mortes evitáveis e a atenuar o impacto econômico decorrente da perda de produtividade.
Embora a análise compreenda dados até 2030, os autores sinalizam que o acompanhamento contínuo das estatísticas de incidência e mortalidade é indispensável para avaliar o efeito de políticas implementadas e para ajustar estratégias. O acompanhamento deverá considerar diferenças demográficas, variação de fatores de risco e mudanças nos padrões de acesso ao cuidado oncológico em todo o território nacional.
Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil