Paciente infectada por HIV após transplante de órgão morre no Rio de Janeiro

A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) confirmou nesta quarta-feira (1º) a morte de uma mulher de 64 anos que, em outubro de 2024, recebeu um órgão contaminado pelo vírus HIV. O óbito ocorreu em 18 de março e a causa está em investigação. A paciente era uma das seis pessoas expostas ao vírus durante procedimentos de transplante realizados naquele mês em unidades de saúde fluminenses.

Segundo a SES-RJ, a paciente permanecia em acompanhamento multidisciplinar desde a descoberta da infecção. Ela estava internada em uma unidade especializada, onde recebia tratamento clínico regular, monitoramento laboratorial e apoio psicológico. De acordo com a secretaria, o estado arcava integralmente com os custos do atendimento desde novembro de 2024. Em julho de 2025, a mulher foi indenizada pelo governo estadual, em valor não divulgado, como parte das medidas de reparação às vítimas do episódio.

O caso que levou à contaminação dos seis receptores foi divulgado em 2024, quando verificou-se que dois doadores de órgãos apresentavam resultado positivo para HIV. A infecção não foi detectada antes dos transplantes porque os laudos sorológicos, emitidos pelo laboratório PCS Saleme, apontaram falsamente que não havia presença do vírus. O laboratório havia sido contratado em dezembro de 2023 pela Fundação Saúde, vinculada ao governo fluminense, para realizar exames de triagem sorológica em potenciais doadores.

A falha considerada “inadmissível” pelas autoridades de saúde provocou uma série de investigações. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a Polícia Civil e o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro instauraram procedimentos para apurar eventuais responsabilidades criminais, cíveis e éticas. Em paralelo, a Vigilância Sanitária estadual interditou o PCS Saleme, e o contrato firmado com a Fundação Saúde foi rescindido. A direção da fundação pediu renúncia poucos dias após a divulgação dos fatos.

As apurações preliminares indicaram a emissão de laudos fraudulentos pelo laboratório, que deixaram de apontar a soropositividade dos doadores. A prática contraria protocolos nacionais de segurança para transplantes, que exigem testes rigorosos para vírus como HIV, hepatites B e C e sífilis. Peritos avaliam se houve erro técnico, falsificação deliberada ou falhas em procedimentos internos de qualidade.

Em decorrência da contaminação, os seis receptores passaram a integrar um programa de acompanhamento contínuo oferecido pela SES-RJ. A assistência incluiu antirretrovirais, consultas periódicas, exames de carga viral e suporte psicológico. Além da paciente que morreu em março, outros cinco transplantados seguem em observação, sem registros públicos de agravamento clínico até o momento.

O Ministério da Saúde classificou o episódio como inédito em magnitude no país. Relatórios preliminares elaborados pela pasta recomendaram revisão dos contratos de prestação de serviços laboratoriais em todas as unidades transplantadoras do Rio de Janeiro e reforço na capacitação de equipes responsáveis pela triagem de doadores. Também foi sugerida a criação de um sistema eletrônico que permita rastrear, em tempo real, os resultados de exames sorológicos antes da liberação dos órgãos.

Paciente infectada por HIV após transplante de órgão morre no Rio de Janeiro - Radar da Saúde

Imagem: Radar da Saúde

No âmbito criminal, a Polícia Civil investiga possíveis crimes de falsidade ideológica, lesão corporal e até homicídio culposo, caso seja comprovada relação direta entre a fraude laboratorial e eventuais mortes dos receptores. Funcionários do laboratório, gestores da Fundação Saúde e profissionais envolvidos na cadeia de transplantes já prestaram depoimentos. Laudos técnicos complementares foram solicitados ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli para verificar a autenticidade dos exames emitidos pelo PCS Saleme.

Enquanto a causa da morte da paciente de 64 anos não é oficialmente determinada, a SES-RJ informou que continuará fornecendo assistência médica e apoio psicológico aos familiares. A secretaria também reiterou que mantém o monitoramento dos demais receptores infectados, com ênfase na adesão ao tratamento antirretroviral e na prevenção de complicações associadas ao HIV.

Em nota, a pasta lamentou o falecimento e reforçou que “medidas administrativas e judiciais seguem em curso para responsabilizar os envolvidos e evitar a repetição de episódios semelhantes”.

Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

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