Desde 2017, um programa de mestrado em física médica com ênfase em radio-oncologia, oferecido pela Universidade de Los Andes (Uniandes) em cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a Fundación Arturo López Pérez (Falp), vem ampliando a capacitação de profissionais na América Latina e no Caribe. A quinta turma concluiu o curso em abril, em Santiago, no Chile, consolidando uma iniciativa que já formou dezenas de especialistas oriundos de toda a região.
O objetivo central do programa é aumentar a disponibilidade de mão de obra qualificada para a radioterapia, etapa essencial no tratamento de diversos tipos de câncer. Países latino-americanos registram carência histórica de físicos treinados para lidar com equipamentos de alta tecnologia e metodologias avançadas; essa lacuna limita o acesso dos pacientes às terapias indicadas e impacta os resultados clínicos. Ao formar novos profissionais, o mestrado busca reduzir desigualdades e fortalecer a capacidade dos sistemas de saúde locais.
A proposta pedagógica combina módulos acadêmicos intensivos com treinamento clínico supervisionado em centros de referência. Durante o curso, os participantes – todos físicos com experiência prévia em radiação oncológica – aprofundam conhecimentos nas áreas de dosimetria, planejamento de tratamentos, garantia de qualidade e segurança. Na etapa prática, acompanham procedimentos em tempo real, calibram máquinas, analisam imagens e monitoram a administração de doses, adquirindo competências indispensáveis para a realização de terapias complexas com precisão e segurança.
De acordo com a Uniandes, profissionais de 15 países da América do Sul e da América Central concluíram o mestrado nos últimos cinco anos. Ao retornar a seus locais de origem, esses especialistas passam a integrar equipes multidisciplinares que tratam um número crescente de pacientes, contribuem para a atualização de protocolos e introduzem melhorias baseadas em evidências. Esse reforço no quadro de recursos humanos tem potencial para reduzir listas de espera e ampliar a cobertura de serviços oncológicos.
Para Ariel Fariña, diretor da Falp, a formação desenvolve a capacidade do físico em radio-oncologia de avaliar criticamente as melhores estratégias terapêuticas para cada caso. Segundo ele, o domínio técnico aliado a uma postura analítica reflete-se em decisões mais assertivas, na adoção de tecnologias apropriadas e no uso eficiente dos recursos disponíveis em cada instituição, fatores que elevam o padrão dos tratamentos oferecidos.
Além das aulas e dos estágios, o programa destaca a importância da pesquisa científica. Os alunos são incentivados a buscar literatura especializada, interpretar estudos com rigor metodológico e aplicar descobertas relevantes em sua prática diária. Essa cultura de atualização contínua fortalece a segurança do paciente, eleva a qualidade dos processos e sustenta a implantação de inovações terapêuticas em radioterapia.
Imagem: Internet
A AIEA acompanha sistematicamente os resultados da iniciativa. Segundo Saul Perez Pijuan, chefe da Seção para a América Latina e o Caribe da agência, avaliações recentes apontam avanços expressivos na aptidão dos egressos para planejar e administrar tratamentos de alta complexidade. O impacto, afirma, traduz-se em benefícios duradouros para a saúde das populações atendidas, uma vez que procedimentos mais precisos tendem a aumentar a eficácia das terapias e a reduzir efeitos colaterais.
A experiência do rádio-oncologista Francisco Eduardo Lopez Tenorio, do Centro Nacional de Radioterapia Nora Astorga, na Nicarágua, ilustra esses resultados. Graduado em 2023, ele recorda que, antes de 2012, o país dispunha de apenas dois radio-oncologistas para atender cerca de sete milhões de habitantes. Atualmente, o número subiu para 12 especialistas. O profissional atribui parte desse avanço à oportunidade de qualificação oferecida pelo mestrado, que ampliou a capacidade técnica das equipes locais e favoreceu a expansão dos serviços de radioterapia.
A iniciativa integra um esforço global da AIEA para fortalecer a medicina de radiação no combate ao câncer. Conforme destaca Tomoaki Tamaki, chefe da Seção de Radiobiologia Aplicada e Radioterapia da agência, equipamentos de ponta só produzem resultados satisfatórios quando operados por profissionais devidamente treinados. A manutenção e a expansão do programa, portanto, são consideradas peças essenciais para sustentar a melhoria contínua dos serviços oncológicos e para garantir que mais pacientes tenham acesso a terapias seguras e eficazes em toda a América Latina e no Caribe.
Crédito da imagem: IAEA/Dean Calma




