Peso da sobrecarga feminina na escolha dos alimentos
Entre as famílias analisadas, 87% das mães compram e 82% preparam as refeições, enquanto apenas 40% dos pais participam das compras, 27% cozinham e 31% servem a comida às crianças. O estudo indica que, ao acumular trabalho remunerado e responsabilidades domésticas, mulheres recorrem com mais frequência a preparações rápidas, o que favorece a oferta de lanches industrializados.
Desconhecimento e rotulagem frontal
O questionário identificou falhas na compreensão do que se enquadra como ultraprocessado. Iogurtes aromatizados e nuggets de frango preparados na airfryer foram classificados como saudáveis pela maioria dos entrevistados. A rotulagem frontal, que alerta para altos teores de sódio, açúcares e gorduras saturadas, tampouco cumpre integralmente sua função: 26% não sabem interpretar os selos, 55% raramente os observam e 62% nunca deixaram de adquirir um produto em razão dos avisos.
Influência do preço na decisão de compra
A percepção de custo pesa nas escolhas alimentares. Para 67% das famílias, sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes são itens baratos. Em sentido oposto, 68% consideram verduras e legumes caros, proporção que sobe para 76% no caso das frutas e atinge 94% quando se trata de carnes. Essa diferença amplia a presença de ultraprocessados no cardápio diário.
Componentes afetivos associados aos produtos
Entrevistas qualitativas revelam que parte dos responsáveis associa ultraprocessados a recompensas da infância. Adultos que, no passado, não podiam comprá-los sentem satisfação em ceder aos pedidos dos filhos, sobretudo diante de embalagens coloridas ou personagens infantis. Esse simbolismo reforça a aceitação dos produtos e dificulta a redução do consumo.
Confiança na alimentação escolar
O levantamento mostra alto grau de confiança das famílias na merenda oferecida pelas escolas. O Unicef aponta que instituições de ensino podem exercer papel-chave tanto no fornecimento de refeições equilibradas quanto na difusão de informações nutricionais para a comunidade.
Recomendações do Unicef
O relatório sugere seis linhas de ação:
- Regular ultraprocessados: ampliar restrições à publicidade dirigida às crianças, adotar políticas tributárias específicas e criar ambientes escolares livres desses produtos;
- Expandir creches e tempo integral: ofertar mais vagas para reduzir a sobrecarga familiar, especialmente das mulheres, e garantir alimentação saudável durante a permanência na escola;
- Reforçar orientação nutricional: intensificar aconselhamento desde a gestação para evitar introdução precoce de ultraprocessados e consolidar hábitos saudáveis na primeira infância;
- Apoiar iniciativas comunitárias: fomentar hortas urbanas, feiras locais, práticas esportivas e redes de apoio que ampliem o acesso a alimentos frescos;
- Aprimorar entendimento da rotulagem: desenvolver campanhas educativas que expliquem o significado dos selos de alerta e avaliem a efetividade do modelo adotado;
- Investir em comunicação para mudança de comportamento: criar mensagens adequadas à realidade das famílias, com linguagem simples e foco em desafios cotidianos, como identificar “falsos saudáveis”.
De acordo com o Unicef, a combinação dessas estratégias pode reduzir a exposição infantil aos ultraprocessados e estimular escolhas alimentares mais balanceadas, contribuindo para a prevenção de doenças crônicas ao longo da vida.
Crédito da imagem: MAPA/Divulgação