Dados que reforçam a urgência
Estima-se que aproximadamente 40 milhões de pessoas vivam com Alzheimer no mundo, das quais cerca de 2 milhões no Brasil. A cifra nacional pode estar subestimada por limitações de acesso a serviços de saúde e a exames especializados. Paralelamente, a população brasileira envelhece, reforçando a necessidade de estratégias locais de prevenção, rastreamento e tratamento.
Protocolo sanguíneo para diagnóstico clínico
Na UFRGS, Wagner Brum dedica-se à implementação de exames de sangue que identifiquem a doença a partir da proteína p-tau217, um dos principais biomarcadores associados à neurodegeneração. Embora estudos anteriores tenham mostrado boa acurácia, faltavam parâmetros padronizados que permitissem a adoção rotineira do teste. Brum desenvolveu um protocolo de leitura que define faixas de referência para resultados altos, baixos ou intermediários.
Segundo o pesquisador, o método apresenta diagnóstico conclusivo na maioria dos casos, mas entre 20% e 30% das amostras permanecem em zona cinzenta e exigem exames adicionais, como análise de líquor ou Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET-CT). Mesmo assim, o protocolo já vem sendo utilizado por laboratórios na Europa e nos Estados Unidos e começa a ser incorporado de forma pontual pela rede privada no Brasil.
Perspectiva de incorporação ao SUS
O grupo do Zimmer Lab conduz estudos no Rio Grande do Sul para avaliar o impacto do teste sanguíneo na prática clínica, etapa considerada fundamental para pleitear a inclusão da tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS). A expectativa é comprovar que o exame aumenta a confiança diagnóstica, reduz a necessidade de procedimentos invasivos e permite intervenções terapêuticas mais precoces.
Atualmente, o diagnóstico de Alzheimer no país baseia-se principalmente na avaliação clínica de sintomas, associada a exames de imagem estrutural que identificam atrofias cerebrais, mas que não são específicos. As alternativas de maior precisão — coleta de líquor por punção lombar e PET-CT — têm custo elevado e disponibilidade restrita. Um exame de sangue validado poderia ampliar o acesso, diminuir filas e incentivar a busca por tratamento em estágios iniciais.
Apoio institucional e relevância internacional
Os dois pesquisadores contam com financiamento de agências nacionais, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Fundação Serrapilheira e o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). O reconhecimento obtido por Lourenço e Brum ressalta a produção científica de excelência realizada no país e reforça a participação brasileira no esforço global para compreender, diagnosticar e, no futuro, controlar a doença de Alzheimer.
Apesar de mais de um século de estudos desde que Alois Alzheimer descreveu a enfermidade, tratamentos disponíveis apresentam eficácia limitada e não existe cura. Drogas capazes de remover placas de beta-amiloide não se mostraram suficientes para interromper o declínio cognitivo, indicando lacunas no entendimento entre causa molecular e sintomas clínicos. Os trabalhos realizados na UFRJ e na UFRGS buscam justamente preencher parte desse hiato, seja elucidando mecanismos celulares, seja oferecendo meios de diagnóstico mais ágeis e acessíveis.
Com a população mundial envelhecendo, a projeção é de que a prevalência da doença aumente nas próximas décadas. Iniciativas que acelerem a identificação de casos e investiguem alvos terapêuticos, como as conduzidas pelos laboratórios brasileiros premiados, podem contribuir para estratégias de saúde pública mais eficazes e para o desenvolvimento de novos tratamentos.
Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil