Polilaminina inicia ensaio clínico após resultados promissores em estudo-piloto com pacientes tetraplégicos

A substância denominada polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colaboração com o laboratório Cristália, entrou na fase inicial de testes em seres humanos depois de mais de duas décadas de investigações em laboratório e resultados preliminares animadores em pessoas com lesão medular. O ensaio clínico de fase 1 aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) começará neste mês e avaliará segurança, tolerabilidade e sinais iniciais de eficácia em cinco voluntários, todos com trauma agudo completo na medula entre as vértebras T2 e T10.

A polilaminina surgiu acidentalmente quando a bióloga Tatiana Sampaio Coelho tentava separar os componentes da laminina, proteína presente em diversos tecidos humanos. Em vez de se dissociarem, as moléculas se conectaram, formando uma rede nunca antes reproduzida em laboratório. Estudos posteriores mostraram que, no sistema nervoso, as lamininas funcionam como “trilhos” para o crescimento dos axônios, estruturas responsáveis por levar sinais elétricos entre neurônios. Quando a medula é fraturada, esses axônios se rompem e a comunicação entre cérebro e corpo é interrompida, provocando paralisia. A hipótese a ser validada é que a polilaminina ofereça uma base para que novos axônios se formem e restabeleçam o fluxo de impulsos nervosos.

Após testes bem-sucedidos em modelos animais, a equipe conduziu, entre 2016 e 2021, um projeto-piloto com oito pacientes que haviam sofrido lesão medular completa devido a quedas, acidentes automobilísticos ou ferimentos por arma de fogo. Sete participantes passaram também por cirurgia de descompressão – procedimento padrão feito até 72 horas após o trauma. Dois voluntários morreram ainda no hospital em decorrência da gravidade das lesões, e um terceiro faleceu pouco depois por complicações associadas.

Dos cinco sobreviventes que receberam a polilaminina e foram operados, todos apresentaram ganho motor mensurável na escala internacional AIS, que vai de A (lesão completa) a E (função normal). Quatro pacientes progrediram de A para C, recuperando parcialmente movimentos e sensibilidade; um avançou para o nível D, recuperando funções motoras quase normais. Esse último caso é o do advogado Bruno Drummond de Freitas, tetraplégico desde 2018, que relatou ter voltado a mover o dedão do pé poucas semanas após o procedimento e, após reabilitação prolongada, hoje caminha com limitações discretas nas mãos.

Os autores do estudo ressalvam, contudo, que até 15% dos casos classificados inicialmente como lesão completa podem apresentar alguma recuperação espontânea. Inflamação e inchaço no momento do diagnóstico podem levar a classificações mais graves do que a condição real. Por isso, os resultados do projeto-piloto, embora encorajadores, não bastam para comprovar eficácia e segurança em escala populacional.

Nos ensaios clínicos tradicionais, a fase 1 envolve poucos voluntários saudáveis, focando em segurança e farmacocinética. O protocolo da polilaminina difere porque a aplicação é feita diretamente na medula, o que impede o uso de participantes sem lesão. Assim, os cinco voluntários terão trauma recente e serão monitorados quanto a eventos adversos, alterações neurológicas e possíveis sinais de melhora funcional.

Caso se confirme a ausência de toxicidade relevante, o grupo pretende avançar para a fase 2, quando seriam testadas pelo menos duas dosagens em um número maior de pacientes para refinar a formulação e ampliar a leitura de eficácia. A equipe estima um intervalo de cerca de dois anos e meio para completar todas as etapas, incluindo uma eventual fase 3, etapa que requer centenas de voluntários em vários centros e comparação rigorosa entre a substância e o melhor tratamento disponível.

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Imagem: Radar da Saúde 13

Especialistas em farmacologia e ética em pesquisa apontam desafios adicionais. Nos estudos de fase 3, os participantes costumam ser aleatoriamente separados em grupo ativo e grupo controle. No caso da polilaminina, a exigência de aplicação poucos dias após o trauma, somada ao longo período necessário para observar resultados, pode dificultar a oferta posterior do medicamento aos controles caso o benefício se confirme. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) indica que adaptações metodológicas são possíveis, mas sem abrir mão das três fases, consideradas essenciais para evitar conclusões equivocadas sobre segurança ou eficácia.

A Anvisa e os comitês de ética acompanharão cada etapa. Pela Lei 14.874/2024, os prazos máximos para análise de novos protocolos são de 30 dias para os comitês de ética e 90 dias para a agência reguladora, medida que busca acelerar o acesso a inovações sem comprometer a qualidade dos dados. De acordo com a Instância Nacional de Ética em Pesquisa, em situações de doenças graves sem alternativa terapêutica, resultados robustos de fase 2 podem, em tese, subsidiar um registro condicional, enquanto os estudos de fase 3 prosseguem.

Os desenvolvedores da polilaminina consideram que o avanço do projeto depende também de investimentos contínuos em ciência pública. Segundo Tatiana Sampaio, a trajetória do composto só foi possível porque a lesão medular não possui tratamento farmacológico consolidado e mobiliza interesse social e científico, fatores que facilitaram a obtenção de financiamento e parcerias. A conclusão dos ensaios determinará se a rede de proteínas formada em laboratório poderá, de fato, oferecer uma nova perspectiva para milhões de pessoas que convivem com paralisia causada por trauma na medula espinhal.

Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

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