Dos cinco sobreviventes que receberam a polilaminina e foram operados, todos apresentaram ganho motor mensurável na escala internacional AIS, que vai de A (lesão completa) a E (função normal). Quatro pacientes progrediram de A para C, recuperando parcialmente movimentos e sensibilidade; um avançou para o nível D, recuperando funções motoras quase normais. Esse último caso é o do advogado Bruno Drummond de Freitas, tetraplégico desde 2018, que relatou ter voltado a mover o dedão do pé poucas semanas após o procedimento e, após reabilitação prolongada, hoje caminha com limitações discretas nas mãos.
Os autores do estudo ressalvam, contudo, que até 15% dos casos classificados inicialmente como lesão completa podem apresentar alguma recuperação espontânea. Inflamação e inchaço no momento do diagnóstico podem levar a classificações mais graves do que a condição real. Por isso, os resultados do projeto-piloto, embora encorajadores, não bastam para comprovar eficácia e segurança em escala populacional.
Nos ensaios clínicos tradicionais, a fase 1 envolve poucos voluntários saudáveis, focando em segurança e farmacocinética. O protocolo da polilaminina difere porque a aplicação é feita diretamente na medula, o que impede o uso de participantes sem lesão. Assim, os cinco voluntários terão trauma recente e serão monitorados quanto a eventos adversos, alterações neurológicas e possíveis sinais de melhora funcional.
Caso se confirme a ausência de toxicidade relevante, o grupo pretende avançar para a fase 2, quando seriam testadas pelo menos duas dosagens em um número maior de pacientes para refinar a formulação e ampliar a leitura de eficácia. A equipe estima um intervalo de cerca de dois anos e meio para completar todas as etapas, incluindo uma eventual fase 3, etapa que requer centenas de voluntários em vários centros e comparação rigorosa entre a substância e o melhor tratamento disponível.
Especialistas em farmacologia e ética em pesquisa apontam desafios adicionais. Nos estudos de fase 3, os participantes costumam ser aleatoriamente separados em grupo ativo e grupo controle. No caso da polilaminina, a exigência de aplicação poucos dias após o trauma, somada ao longo período necessário para observar resultados, pode dificultar a oferta posterior do medicamento aos controles caso o benefício se confirme. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) indica que adaptações metodológicas são possíveis, mas sem abrir mão das três fases, consideradas essenciais para evitar conclusões equivocadas sobre segurança ou eficácia.
A Anvisa e os comitês de ética acompanharão cada etapa. Pela Lei 14.874/2024, os prazos máximos para análise de novos protocolos são de 30 dias para os comitês de ética e 90 dias para a agência reguladora, medida que busca acelerar o acesso a inovações sem comprometer a qualidade dos dados. De acordo com a Instância Nacional de Ética em Pesquisa, em situações de doenças graves sem alternativa terapêutica, resultados robustos de fase 2 podem, em tese, subsidiar um registro condicional, enquanto os estudos de fase 3 prosseguem.
Os desenvolvedores da polilaminina consideram que o avanço do projeto depende também de investimentos contínuos em ciência pública. Segundo Tatiana Sampaio, a trajetória do composto só foi possível porque a lesão medular não possui tratamento farmacológico consolidado e mobiliza interesse social e científico, fatores que facilitaram a obtenção de financiamento e parcerias. A conclusão dos ensaios determinará se a rede de proteínas formada em laboratório poderá, de fato, oferecer uma nova perspectiva para milhões de pessoas que convivem com paralisia causada por trauma na medula espinhal.
Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil