O epidemiologista Arn Migowski, do Inca, que integra o grupo responsável pela diretriz, avalia que a adoção de um programa organizado pode ampliar a cobertura de exames tanto na rede pública quanto na privada. Embora o teste de sangue oculto e a colonoscopia estejam disponíveis, o acesso de rotina ainda é considerado incipiente. Para o especialista, além de diminuir a mortalidade, o rastreamento sistemático pode contribuir para reduzir a própria incidência, uma vez que permite remover pólipos antes de evoluírem para tumores.
O grupo de trabalho discute, paralelamente, a forma de implementação no SUS. A tendência é que o processo ocorra de modo escalonado, iniciado em regiões-piloto com expansão progressiva. De acordo com Migowski, esse formato busca equilibrar a nova demanda com a prioridade de atendimento a pacientes sintomáticos, que necessitam de avaliação rápida. A estratégia envolverá convocação ativa do público-alvo, entrega de resultados, encaminhamento ágil para colonoscopia quando indicado e reconvocação periódica, exigindo planejamento integrado entre atenção básica, unidades de diagnóstico e serviços especializados.
A presidente da Associação de Gastroenterologia do Rio de Janeiro, Renata Fróes, reforça que o câncer colorretal tende a ser silencioso em seus estágios iniciais. O principal sinal detectável nessa fase é a presença de sangue não visível nas fezes, identificado pelo teste imunoquímico. Durante a colonoscopia, o profissional visualiza o interior do intestino com uma microcâmera acoplada a tubo flexível, localizando eventuais pólipos adenomatosos. Essas lesões, semelhantes a pequenas protuberâncias, podem ser removidas no mesmo procedimento, evitando a transformação maligna.
Embora a diretriz proponha o teste bienal a partir dos 50 anos, a gastroenterologista recomenda que a colonoscopia seja considerada já aos 45 anos, especialmente para pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco. Sinais como anemia, fraqueza, perda de peso, dor abdominal persistente, alteração do hábito intestinal e fezes afiladas constituem alertas que exigem investigação imediata, pois podem indicar doença em estágio mais avançado.
No cenário internacional, programas nacionais de rastreamento de câncer colorretal mostram impacto significativo na mortalidade, combinando testes de triagem em massa com acesso célere à colonoscopia. A diretriz brasileira buscou referências de sistemas parecidos, adaptadas à realidade do SUS. Entre os desafios identificados estão a necessidade de ampliar a oferta de equipamentos, treinar equipes, garantir insumos laboratoriais e estabelecer fluxos de informação que permitam acompanhar os pacientes ao longo dos ciclos de rastreamento.
Depois da etapa de consulta pública, a Conitec analisará as contribuições recebidas e elaborará relatório final. Caso a incorporação seja aprovada, o Ministério da Saúde publicará portaria detalhando responsabilidades das esferas federal, estaduais e municipais, bem como prazos para implantação e monitoramento. O orçamento necessário será definido com base na população-alvo, na periodicidade dos exames e na capacidade instalada de colonoscopia.
Paralelamente às discussões técnicas, março é marcado pela campanha Março Azul, voltada à conscientização sobre o câncer colorretal. A iniciativa estimula a população a procurar orientação médica, adotar hábitos saudáveis e conhecer os exames de rastreamento. Especialistas destacam que dieta equilibrada, prática regular de atividade física, controle de peso corporal e redução do consumo de álcool e tabaco também contribuem para a prevenção da doença.
Se aprovado, o programa de rastreamento representará uma das principais inovações recentes no âmbito da oncologia preventiva do SUS, ao lado de ações consolidadas para câncer de mama e de colo do útero. A expectativa dos profissionais envolvidos é que o modelo organizado eleve a taxa de detecção precoce e, consequentemente, melhore os indicadores de sobrevida dos pacientes brasileiros.
Crédito da imagem: Câmara Municipal de Afonso Claudio/Divulgação