OMS aponta queda nas infecções por hepatite e elogia avanço do Brasil, mas alerta para ritmo insuficiente

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou nesta terça-feira, durante a Cúpula Mundial sobre Hepatite realizada em Genebra, o Relatório Global de Hepatite 2026. O documento confirma redução consistente nas infecções e nas mortes por hepatite B e C desde 2015, mas adverte que o progresso ainda é lento para que as metas de eliminação até 2030 sejam atingidas. O Brasil aparece entre os países que mais avançaram, sobretudo na prevenção da transmissão de mãe para filho e na ampliação do acesso ao tratamento.

Segundo o levantamento, as hepatites virais B e C, responsáveis por 95% das mortes relacionadas à doença, provocaram 1,34 milhão de óbitos em 2024. No mesmo período, mais de 4,9 mil novas infecções foram registradas diariamente, o que corresponde a 1,8 milhão por ano. Estima-se que 287 milhões de pessoas viviam com infecção crônica por um dos dois vírus em 2024.

Desde 2015, o número anual de novas infecções por hepatite B recuou 32% e as mortes associadas à hepatite C diminuíram 12% em escala global. Entre crianças menores de cinco anos, a prevalência de hepatite B caiu para 0,6%. A meta prevista nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é de 0,1% até 2030; 85 países – entre eles Brasil e Portugal – já alcançaram ou superaram esse patamar.

O Brasil é citado como único país de língua portuguesa no conjunto de dez exemplos de iniciativas nacionais com impacto mensurável. O relatório destaca o crescimento da cobertura vacinal contra hepatite B em recém-nascidos e lactentes, que saltou de 77% em 2023 para 98% em 2025. Também ressalta a ampliação do diagnóstico: em 2025, o Ministério da Saúde distribuiu aproximadamente 14 milhões de testes rápidos para hepatite C e 10 milhões para hepatite B em todo o território.

Quanto à mortalidade, o país registrou queda de 50% nas mortes relacionadas ao vírus da hepatite B entre 2014 e 2024, chegando a 0,1 óbito por 100 mil habitantes. No mesmo intervalo, o índice ligado à hepatite C recuou 60%, atingindo 0,4 óbito por 100 mil habitantes. Apesar dos avanços, a OMS observa que persistem barreiras de acesso a serviços de prevenção e cuidado, influenciadas por fatores socioeconômicos e pela distância de centros de saúde em áreas remotas.

No cenário global, a organização frisa que o ritmo atual não garante a eliminação da hepatite como ameaça de saúde pública em 2030. Um dos principais entraves é o baixo alcance do tratamento. Dos 240 milhões de pessoas com hepatite B crônica, menos de 5% recebem terapia antiviral. Para hepatite C, apenas 20% dos infectados foram tratados desde 2015, ano em que se passou a utilizar esquema de 12 semanas com taxa de cura próxima de 95%.

A distribuição regional dos casos sinaliza desigualdades. A África concentrou 68% das novas infecções por hepatite B em 2024, mas só 17% dos recém-nascidos receberam a dose da vacina imediatamente após o parto. Para a hepatite C, pessoas que utilizam drogas injetáveis responderam por 44% das novas infecções no mundo, o que levou a OMS a reiterar a necessidade de fortalecer serviços de redução de danos.

O peso das mortes também se concentra em poucos países. Bangladesh, China, Etiópia, Gana, Índia, Indonésia, Nigéria, Filipinas, África do Sul e Vietnã reuniram 69% dos óbitos por hepatite B em 2024. Entre as nações com maior número absoluto de pessoas vivendo com hepatite B ou C, Angola é o único representante lusófono.

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Imagem: Internet

Ferramentas eficazes já estão disponíveis, lembra o relatório. A vacina contra hepatite B oferece proteção superior a 95% contra infecções agudas e crônicas, enquanto o tratamento antiviral de longo prazo reduz significativamente o risco de cirrose e carcinoma hepatocelular. Para hepatite C, a terapia oral de oito a doze semanas cura mais de 95% dos pacientes.

Mesmo com arsenal comprovado, aspectos como estigma, fragilidade de sistemas de saúde e financiamento insuficiente atrasam a expansão dos serviços. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou que a eliminação é viável, porém depende de “compromisso político contínuo” e de recursos domésticos sustentáveis.

Para acelerar o processo, a OMS delineia ações prioritárias: ampliar o tratamento da hepatite B crônica, sobretudo nas regiões africana e do Pacífico Ocidental; aumentar o acesso à terapia para hepatite C no Mediterrâneo Oriental; expandir a cobertura da vacina ao nascer; oferecer profilaxia antiviral para prevenir a transmissão vertical; e reforçar a segurança de injeções em serviços de saúde e na comunidade.

O documento conclui que cada caso não diagnosticado ou não tratado representa uma morte evitável. Por isso, recomenda integrar os serviços de hepatite à atenção primária, adotar abordagens centradas na comunidade e direcionar políticas aos grupos mais atingidos, de forma que o progresso observado em países como o Brasil se torne regra, e não exceção, até o prazo estipulado para 2030.

Crédito da imagem: ONU News

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