Um estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) revela que a oferta de serviços médicos na América do Sul continua influenciada pelo local de residência da população. O documento “Panorama do mercado de trabalho de saúde em nove países sul-americanos” analisa a distribuição de médicos, enfermeiros e outros profissionais em toda a região e aponta desequilíbrios que afetam diretamente o acesso a cuidados básicos.
Segundo o relatório, Peru, Argentina, Chile e Colômbia apresentam os quadros mais críticos, mas o Brasil também enfrenta lacunas relevantes. A concentração de especialistas em capitais e grandes centros contrasta com a carência persistente nas áreas rurais, periferias e em grande parte das regiões Norte e Nordeste. Nessas localidades, a distância de unidades de saúde e a ausência de equipes completas colocam em risco a continuidade de tratamentos e a realização de procedimentos preventivos.
A OPAS calcula que, até 2030, o déficit de profissionais em todo o continente americano pode variar de 600 mil a 1 milhão de trabalhadores. O levantamento detalha que a densidade de recursos humanos nos nove países analisados oscila de menos de 40 a quase 118 profissionais por 10 mil habitantes, evidenciando disparidades significativas no planejamento de pessoal. No Peru, por exemplo, a diferença entre zonas urbanas e rurais resulta em um déficit superior a 54 mil profissionais.
O órgão regional aponta ainda tendências preocupantes em matéria de vínculo trabalhista. Em nações como Argentina, Chile e Colômbia, a sobrecarga de múltiplos empregos e a migração interna de profissionais tornaram-se mecanismos de compensação financeira. Esse cenário fragiliza a continuidade dos serviços, especialmente nos postos de atenção primária, onde a rotatividade elevada dificulta a formação de equipes estáveis.
Embora universidades sul-americanas ampliassem a oferta de vagas nos últimos anos, o relatório destaca um descompasso entre a formação oferecida e as necessidades epidemiológicas da população. Os currículos concentram-se em procedimentos de alta complexidade e na atuação hospitalar, enquanto a maior demanda está nos cuidados preventivos e no acompanhamento de doenças crônicas em nível comunitário. A consequência é um volume crescente de profissionais pouco preparados para atuar em contextos de baixa infraestrutura.
Para mitigar esse quadro, a OPAS mantém um campus virtual de saúde pública que oferece cursos gratuitos em quatro idiomas. Conteúdos sobre manejo clínico de dengue, hipertensão, redução da mortalidade materna e organização da atenção primária já alcançaram mais de 4 milhões de capacitações concluídas. A entidade defende que iniciativas de educação continuada, associadas a carreiras estruturadas, sejam decisivas para atrair jovens médicos e enfermeiros a localidades remotas.
O estudo recomenda que os governos ultrapassem a política de simples contratação de pessoal e instituam mecanismos sólidos de retenção, com remuneração adequada, perspectiva de progressão profissional e condições de trabalho seguras. Outro ponto enfatizado é a necessidade de reforçar a infraestrutura e o abastecimento de insumos nas unidades básicas de saúde, reduzindo a sobrecarga de hospitais de referência e aproximando o atendimento da comunidade.
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De acordo com a análise, enfrentar a crise de recursos humanos dependerá de articulação interministerial. A OPAS sugere que as pastas de Saúde, Educação e Finanças alinhem suas estratégias para garantir financiamento sustentável, revisão de currículos acadêmicos e incentivos fiscais ou salariais direcionados a regiões com menor cobertura. A entidade reforça que o direito constitucional à saúde, em vigor em quase todos os países estudados, só será efetivo quando a população rural ou periférica passar a contar com o mesmo padrão de atendimento disponível nos grandes centros.
Além dos fatores internos, o relatório observa que a pandemia de Covid-19 expôs a vulnerabilidade dos sistemas e intensificou a procura global por profissionais qualificados, estimulando a migração internacional. Esse movimento gerou pressão adicional sobre países que já conviviam com carências históricas, agravando a competição por mão de obra especializada.
Como conclusão técnica, a OPAS destaca que o avanço tecnológico na medicina não será suficiente para corrigir as disparidades se a distribuição geográfica do trabalho não acompanhar as necessidades reais da população. A adoção de políticas de estado, com metas de longo prazo e monitoramento contínuo de indicadores, é considerada fundamental para transformar o panorama atual e reduzir a assimetria no acesso a serviços essenciais.
Crédito da imagem: PAHO/Joshua E. Cogan




