Genebra – A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou a segunda edição do documento “Orientação para Planos de Ação sobre Calor e Saúde”, que estabelece um conjunto de recomendações para governos prepararem, executarem e avaliarem respostas a ondas de calor. Produzido para o contexto europeu, o material pode ser adotado globalmente com o objetivo declarado de eliminar mortes provocadas por temperaturas extremas.
De acordo com dados reunidos pela agência da ONU, mais de 200 mil pessoas faleceram em consequência direta ou indireta do calor na União Europeia nos últimos quatro anos. A OMS enfatiza que o fenômeno deixou de ser pontual e passou a configurar uma crise sanitária recorrente, sobrecarregando serviços de saúde, transporte, energia e outras infraestruturas essenciais.
Plano integrado de prevenção
O guia recomenda que autoridades nacionais, regionais e municipais implantem planos integrados de prevenção e resposta antes da chegada do verão. Entre as principais frentes sugeridas estão:
- instalação de sistemas de alerta precoce que combinem previsões meteorológicas e indicadores de saúde;
- arborização urbana e expansão de áreas verdes para reduzir ilhas de calor;
- criação de centros públicos de resfriamento para acolher moradores sem acesso a ambientes climatizados;
- monitoramento ativo de idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas;
- capacitação de professores, cuidadores e profissionais de saúde para reconhecer sinais de estresse térmico;
- adaptação de jornadas de trabalho e atividades físicas durante picos de temperatura;
- reforço temporário das equipes médicas e de unidades de emergência.
O documento destaca que medidas individuais, como evitar a exposição direta ao sol, manter ambientes ventilados e intensificar a hidratação, são positivas, mas insuficientes para enfrentar um problema de caráter sistêmico. A OMS defende que só políticas públicas coordenadas podem mitigar impactos econômicos e reduzir óbitos.
Contexto europeu
A publicação chega em meio a uma sucessão de ondas de calor registradas na Europa nas últimas décadas. A região é apontada pelo órgão como a que mais aquece no planeta. Hoje, sistemas de saúde de vários países enfrentam picos de atendimentos por desidratação, complicações cardiorrespiratórias e agravamento de doenças crônicas durante verões cada vez mais longos e intensos.
Autoridades de saúde alemãs chamam atenção para a vulnerabilidade de grandes centros urbanos, onde densidade populacional e impermeabilização do solo aumentam a temperatura média local. Berlim, por exemplo, já mantém campanhas permanentes de comunicação pública, preserva parques e aciona redes comunitárias para acompanhar moradores isolados em dias críticos.
No sul da Europa, alertas vermelhos foram ativados para 16 cidades italianas diante de recordes recentes de temperatura. Situação semelhante mobilizou protocolos de emergência em outros países mediterrâneos, que registram consumo elevado de eletricidade, interrupções no transporte público e pressão suplementar sobre hospitais.
Meta de “zero mortes”
A OMS sustenta que a meta de zerar fatalidades por calor é alcançável, desde que exista coordenação intergovernamental, investimento em infraestrutura de adaptação climática e engajamento de todos os setores sociais. Para fundamentar essa avaliação, o guia reúne evidências científicas sobre a eficácia de intervenções realizadas em cidades europeias e asiáticas após a primeira edição das diretrizes, lançada em 2008.
Imagem: Internet
Além de recomendações estratégicas, o texto inclui checklists operacionais, estudos de caso e modelos de comunicação de risco voltados a diferentes públicos. Esses instrumentos permitem que gestores avaliem vulnerabilidades locais, definam níveis de alerta e calibrem respostas conforme a severidade e a duração da onda de calor.
Desafio crescente
Enquanto as emissões de gases de efeito estufa globalmente mantêm a tendência de crescimento, especialistas projetam aumento na frequência, na intensidade e na duração dos episódios de calor extremo. Consequentemente, sistemas de saúde precisam se adaptar não apenas a volumes maiores de pacientes, mas também a surtos simultâneos de problemas respiratórios, renais e cardiovasculares, além de impactos indiretos, como queda de produtividade e danos à agricultura.
O Ministério do Meio Ambiente da Alemanha classifica o calor como um dos maiores desafios climáticos contemporâneos, sobretudo para grupos socioeconomicamente vulneráveis que dispõem de menos recursos para resfriar suas residências. Já a direção regional da OMS reforça que o calor é considerado um “assassino silencioso”, pois pode causar danos graves mesmo sem registros de eventos meteorológicos extremos aparentes.
Com a nova edição do guia, a OMS repassa aos Estados europeus a tarefa de atualizar regulamentos de edificação, infraestrutura urbana e planejamento territorial, de modo a incorporar critérios de resiliência térmica. A agência também encoraja países fora do continente a adaptar o material às suas realidades climáticas, reforçando a necessidade de estratégias globais diante das projeções de aquecimento médio.
Segundo a instituição, o sucesso das ações depende da combinação de informação acessível à população, prontidão do sistema de saúde e medidas estruturais de longo prazo, como redução de emissões e expansão de áreas verdes. A OMS pretende monitorar a implementação dos planos a partir de indicadores padronizados e revisar as orientações sempre que novos dados científicos estiverem disponíveis.
Crédito da imagem: Unsplash/Domenico Daniele



