Quase 470 milhões nas Américas convivem com algum distúrbio neurológico, indica estudo

Radar da Saúde

Quarenta por cento da população que vive nas Américas enfrenta pelo menos um distúrbio neurológico não transmissível ou decorrente de lesões. O dado, equivalente a aproximadamente 470 milhões de pessoas, faz parte de um estudo divulgado na revista The Lancet e conduzido por pesquisadores da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A investigação analisou 19 doenças neurológicas em 38 países e territórios entre 1990 e 2023.

Impacto em mortes e incapacidade

Segundo o levantamento, os distúrbios neurológicos resultaram em cerca de 1,1 milhão de mortes na região em 2023. Além disso, essas condições foram responsáveis por 37,5 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade — métrica que reúne anos perdidos por morte prematura e anos vividos com doença ou limitação funcional.

Principais causas de perda de saúde

A enxaqueca surgiu como a principal causa de anos de vida ajustados por incapacidade em todas as faixas etárias combinadas, seguida por doença de Alzheimer e outras demências, acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico e hemorragia intracerebral. A classificação varia quando observados grupos etários específicos.

Entre crianças menores de cinco anos, defeitos do tubo neural, transtornos do espectro autista e epilepsia foram os distúrbios que mais provocaram perda de saúde neurológica. Na população de adolescentes e adultos jovens, a enxaqueca figurou como um dos principais motivos de incapacidade. Já nos idosos, a maior carga recaiu sobre doença de Alzheimer, outras demências e AVC.

Fatores de risco identificados

O relatório indica que parte relevante da carga de doença poderia ser evitada com intervenções sobre fatores modificáveis. A hipertensão arterial apareceu como o principal elemento de risco associado ao AVC, enquanto níveis elevados de glicose sanguínea contribuíram substancialmente para a ocorrência de doença de Alzheimer e outras demências. A exposição a poluentes ambientais, especialmente chumbo e partículas em suspensão no ar, também foi apontada como influente na incidência de diferentes enfermidades neurológicas.

Evolução temporal e transição epidemiológica

Entre 1990 e 2023, as taxas de mortalidade atribuíveis a distúrbios neurológicos diminuíram, mas o número absoluto de pessoas afetadas continuou a crescer. O aumento populacional e o envelhecimento explicam boa parte desse avanço, resultando em uma transição epidemiológica na qual mais indivíduos sobrevivem a episódios agudos, porém vivem por períodos prolongados com limitações físicas, cognitivas ou comportamentais.

Quase 470 milhões nas Américas convivem com algum distúrbio neurológico, indica estudo - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Para os autores, essa mudança impõe desafios adicionais aos sistemas de saúde, que precisam ampliar serviços de reabilitação, cuidados de longa duração e suporte a pessoas com deficiência. A adequação da infraestrutura e o treinamento de profissionais especializados são apontados como estratégias essenciais para absorver a demanda crescente.

Metodologia do estudo

Os pesquisadores consideraram dados de 38 países e territórios das Américas ao longo de 33 anos. Foram avaliadas 19 doenças neurológicas não transmissíveis e relacionadas a lesões, incluindo enxaqueca, diferentes tipos de AVC, epilepsia, doença de Alzheimer, transtornos do espectro autista, defeitos congênitos do tubo neural, hemorragia intracerebral, meningite pós-traumática, dentre outras. A análise utilizou métricas padronizadas para estimar prevalência, mortalidade e incapacidade, permitindo comparações entre sub-regiões e faixas etárias.

Conclusões principais

A pesquisa revela que os distúrbios neurológicos constituem um problema de saúde pública de grande magnitude nas Américas. Apesar da redução relativa nas mortes, a expansão do número de casos e a elevada contribuição dessas condições para a incapacidade indicam necessidade de políticas direcionadas à prevenção de fatores de risco, diagnóstico precoce e oferta de tratamento contínuo. A implementação de estratégias que abordem hipertensão, controle glicêmico e qualidade ambiental poderia diminuir significativamente a carga de doença observada.

Crédito da imagem: OMS/Opas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *