Estudo aponta queda na continuidade do pré-natal entre indígenas, jovens e mulheres com baixa escolaridade

Radar da Saúde

Um levantamento do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a organização Umane, indica que o pré-natal completo ainda não alcança parcela expressiva das gestantes brasileiras, sobretudo indígenas, adolescentes, moradoras da Região Norte e mulheres com menor nível de instrução. O estudo, divulgado nesta segunda-feira (13), analisou mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados em 2023 no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde.

De acordo com os dados, 99,4% das gestantes realizam pelo menos uma consulta de pré-natal. Entretanto, quando considerado o novo parâmetro mínimo de sete atendimentos — adotado nacionalmente em 2024 — a taxa de cobertura cai para 78,1%. A redução expressa diferenças regionais, étnico-raciais e socioeconômicas.

Impacto da escolaridade

A escolaridade surge como um dos principais fatores de distinção. Entre mulheres com maior nível de educação formal, 86,5% completam as sete consultas. No grupo com menos anos de estudo, o índice praticamente se reduz à metade, alcançando 44,2%. O estudo ressalta que a limitação no acesso à educação tende a se refletir em menor familiaridade com informações de saúde, dificuldade de navegação no sistema público e barreiras de renda ou deslocamento.

Vulnerabilidade indígena

Quando se combinam baixa escolaridade e pertencimento a povos originários, a situação torna-se ainda mais crítica. Apenas 19% das mulheres indígenas com poucos anos de estudo conseguem concluir o acompanhamento recomendado. Considerando todas as indígenas, 51,5% chegam à última consulta, proporção inferior à verificada entre mulheres pretas (75,7%), pardas (75,3%) e brancas (84,3%). O abandono do acompanhamento ocorre em 46,2 pontos percentuais dos casos entre indígenas, taxa três vezes maior que a observada entre brancas (15,3 pontos percentuais).

Diferenças regionais

A análise também evidencia disparidades geográficas. Na Região Norte, 63,3% das gestantes completam o pré-natal, percentual que sobe gradualmente no Nordeste (76,1%) e no Centro-Oeste (77%). As melhores coberturas foram registradas no Sudeste (81,5%) e no Sul (85%). Os autores atribuem parte dessa variação à distribuição desigual de unidades de saúde, à oferta de transporte público e à dificuldade de deslocamento em áreas remotas.

Adolescentes e pré-natal

O grupo de gestantes com menos de 20 anos também merece atenção: só 67,7% delas encerram o ciclo completo, ante 82,6% entre mulheres com 35 anos ou mais. Para os pesquisadores, políticas que abordem educação sexual, combate ao estigma da gravidez precoce e fortalecimento do vínculo com a atenção primária podem elevar a adesão das adolescentes.

Novas metas nacionais

O parâmetro de sete consultas é recente. Foi ampliado em 2024, junto ao lançamento da Rede Alyne, estratégia do governo federal que prevê reduzir em 25% a mortalidade materna até 2027 e, especificamente entre gestantes negras, cortar os óbitos pela metade. O ICEH/UFPel avalia que o sucesso da iniciativa depende de ações contra o racismo estrutural, da qualificação de profissionais e de investimentos em transporte para localidades mais isoladas.

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Imagem: Radar da Saúde 9

Importância do acompanhamento

O pré-natal visa detectar precocemente doenças ou condições que possam comprometer a saúde da mãe ou do bebê, permitindo intervenção médica oportuna. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda consultas mensais até a 28ª semana de gestação, quinzenais da 28ª à 36ª semana e semanais a partir desse ponto até o parto. Entre os exames habituais estão hemograma, glicemia, sorologias para sífilis, HIV e hepatites, além de análises de urina e, quando necessário, ultrassonografia para confirmação da idade gestacional.

O acompanhamento também engloba orientações sobre aleitamento materno. A entidade pediátrica indica que o leite materno seja a única fonte de alimentação do bebê até os seis meses e permaneça como base nutricional até os dois anos ou mais, mesmo após a introdução de alimentos complementares saudáveis. Estudos apontam benefícios imunológicos para a criança e redução do risco de certos tipos de câncer para a mãe.

Recomendações dos especialistas

Para ampliar a cobertura, o estudo sugere:

  • Combater práticas discriminatórias no atendimento, com formação continuada das equipes;
  • Implantar transporte público ou rotas específicas que facilitem o deslocamento das gestantes às unidades de saúde;
  • Realizar busca ativa de mulheres que faltam às consultas e estabelecer vínculo com agentes comunitários;
  • Desenvolver programas educativos voltados a adolescentes, enfatizando direitos reprodutivos e planejamento familiar;
  • Focar em mulheres com menor escolaridade, apresentando de forma acessível os benefícios do pré-natal.

Os responsáveis pela pesquisa afirmam que o cumprimento das sete consultas deve ser visto como direito universal. Garantir igualdade de acesso, independentemente de regionalidade, cor da pele ou nível de instrução, é considerado passo decisivo para reduzir a mortalidade materna e infantil no país.

Crédito da imagem: Agência Brasil/Marcello Casal Jr./Arquivo

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