A população brasileira perdeu, em média, 3,4 anos de expectativa de vida durante a pandemia de covid-19. O número resulta de uma elevação de 27,6% na mortalidade registrada entre 2020 e 2022 e integra a avaliação nacional do Estudo Carga Global de Doenças, pesquisa que acompanha o impacto de enfermidades e fatores de risco em mais de 200 países. Os dados constam da edição de maio da revista científica The Lancet Regional Health Americas.
Os pesquisadores atribuem o retrocesso sobretudo à postura adotada pelo governo federal então presidido por Jair Bolsonaro. O trabalho aponta que, ao rejeitar o distanciamento social, difundir desinformação, promover medicamentos sem eficácia comprovada e atrasar a compra de vacinas, as autoridades fragilizaram orientações científicas, o que contribuiu para o agravamento dos óbitos por covid-19 e suas consequências sobre a longevidade.
Embora a redução da expectativa de vida tenha alcançado todo o território nacional, a intensidade variou de acordo com o estado. As maiores quedas ocorreram na região Norte: Rondônia perdeu 6,01 anos, Amazonas 5,84 anos e Roraima 5,67 anos. Esses resultados refletem, segundo o levantamento, menor cobertura de serviços de saúde, acesso limitado a leitos de terapia intensiva e adoção tardia de medidas de contenção.
Na outra ponta, a região Nordeste apresentou as menores reduções. Maranhão perdeu 1,86 ano, Alagoas 2,01 anos e Rio Grande do Norte 2,11 anos. O estudo conclui que a diferença está relacionada à resposta coordenada dos governos estaduais nordestinos, que formaram um consórcio com comitê científico independente e implementaram recomendações como fechamento de escolas e comércios, obrigatoriedade de máscaras, políticas de proteção trabalhista e sistemas de dados em tempo real.
Para os autores, se estratégia semelhante tivesse sido adotada em âmbito federal, o impacto da pandemia sobre a carga de doenças e a expectativa de vida poderia ter sido mitigado em todo o país. A comparação internacional reforça esse argumento: durante o mesmo período, o desempenho brasileiro foi inferior ao de vizinhos do Mercosul, como Argentina e Uruguai, e a países do Brics, como China e Índia, que alcançaram cobertura vacinal mais rápida e apresentaram menores quedas na longevidade.
O histórico de campanhas de imunização de larga escala já havia colocado o Brasil entre as referências mundiais em vacinação. Contudo, o estudo assinala que a ausência de coordenação central, a demora na aquisição de imunizantes e o foco em tratamentos precoces sem respaldo científico empurraram o país para trás no cronograma de proteção da população contra a covid-19.
A pesquisa também examinou a evolução dos indicadores de saúde em um intervalo mais amplo, de 1990 a 2023. Nesse recorte, o Brasil registrou avanço: a expectativa de vida subiu 7,18 anos, a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5% e o índice de anos saudáveis perdidos por morte ou doença diminuiu 29,5%. Entre os fatores que sustentaram o progresso estão melhorias no saneamento básico, expansão econômica, criação do Sistema Único de Saúde (SUS), implantação do Programa de Saúde da Família e ampliação das coberturas vacinais.
Imagem: Radar da Saúde
Com esses elementos, a taxa de mortalidade padronizada para quase todas as principais causas de morte recuou nas últimas décadas. As exceções ficaram por conta da doença de Alzheimer e outras demências, cuja taxa cresceu 1%, e da doença renal crônica, que aumentou 9,6% entre 1990 e 2023, tendência atribuída ao envelhecimento populacional e à prevalência crescente de fatores de risco como diabetes e hipertensão.
Em 2023, a doença isquêmica do coração manteve-se como a principal causa de óbitos no país, seguida pelo acidente vascular cerebral (AVC) e pelas infecções do trato respiratório inferior. Já a violência interpessoal apareceu como o fator que mais gera mortes prematuras, medida pelo número de anos de vida perdidos antes dos 70 anos. O estudo estima 1.351 anos de vida perdidos, por 100 mil habitantes, em decorrência de homicídios e outras formas de agressão.
No conjunto, os autores reforçam que as perdas observadas durante a pandemia contrastam com os avanços verificados nas décadas anteriores. Eles destacam que ações fundamentadas em evidências, campanhas de vacinação célere e coordenação intergovernamental são decisivas para preservar vidas e conter retrocessos em indicadores de saúde pública.
Crédito da imagem: Alex Pazuello/Semcom/Prefeitura de Manaus




