Emergência alimentar se agrava na Somália e coloca 6 milhões em níveis críticos de insegurança

A Somália enfrenta uma deterioração rápida do quadro de segurança alimentar, com projeção de que 6 milhões de pessoas entrem em níveis considerados críticos entre abril e junho deste ano. O alerta foi emitido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Programa Mundial de Alimentos (PAM). O número corresponde a 31% da população somali, indicador que coloca o país entre as crises alimentares mais graves do momento.

De acordo com a última atualização do Sistema de Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), aproximadamente 1,9 milhão de pessoas já se encontram em situação de emergência alimentar – estágio que antecede a fome – volume três vezes maior que o registrado há menos de um ano. A despeito dos alertas anteriores, a assistência humanitária disponível permanece abaixo do necessário, cenário descrito pelas agências da ONU como “alarmante e urgente”.

O impacto mais severo recai sobre a população infantil. O IPC estima que cerca de 2 milhões de crianças entre seis meses e cinco anos apresentem subnutrição grave, provocada por ingestão insuficiente de calorias. Dentro desse grupo, 493 mil menores sofrem de desnutrição aguda grave, caracterizada por perda acelerada de peso e massa muscular. Nessa condição, o risco de mortalidade é 12 vezes superior ao de crianças bem nutridas, segundo os especialistas.

Para o coordenador humanitário da ONU na Somália, George Conway, o triplo aumento de pessoas em emergência alimentar reflete a conjugação de fatores adversos, como seca prolongada, persistência da violência armada, escassez de recursos para as operações de socorro e pressões externas decorrentes do conflito no Oriente Médio. A dificuldade de acesso a áreas isoladas também limita o alcance das distribuições de alimentos e de serviços básicos de saúde.

Etienne Peterschmitt, representante da FAO no país, avalia que a Somália se encontra em um “ponto crítico”. Ele destaca que a próxima temporada de chuvas será determinante para o comportamento dos preços dos alimentos e para a recuperação das pastagens. Caso o período chuvoso falhe, os custos continuem subindo e a ajuda não seja ampliada, o risco de evolução para fome torna-se elevado, sobretudo no sudeste somali, onde 40% das crianças já enfrentam desnutrição aguda.

Sondagens da FAO indicam que nove em cada dez habitantes recebem pouca ou nenhuma assistência humanitária, consequência direta da falta de financiamento. O corte de recursos levou ao fechamento de mais de 500 unidades de saúde e nutrição no país. Sem esses serviços, aumentam a dificuldade de controlar surtos de doenças e o índice de mortalidade, especialmente entre crianças menores de cinco anos.

O quadro atual combina precipitação abaixo da média em sucessivos ciclos agrícolas, conflitos que restringem movimentos populacionais e mercado, carestia de insumos, deslocamentos internos e impactos climáticos extremos. Além da seca prolongada, existe a ameaça de enchentes em determinadas bacias hidrográficas, fator que pode agravar ainda mais a vulnerabilidade de comunidades rurais e de deslocados internos instalados em assentamentos precários.

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Imagem: Internet

Diante da escalada da crise, FAO, Ocha, Unicef e PAM renovaram o apelo por um aumento imediato da ajuda multissetorial. As agências argumentam que intervenções simultâneas em segurança alimentar, nutrição, saúde, água, saneamento e proteção são essenciais para estabilizar as condições de vida e evitar o avanço para estágios catastróficos. As entidades enfatizam, ainda, a necessidade de financiamento sustentado e previsível, capaz de assegurar a continuação dos programas de distribuição de alimentos, tratamento de desnutrição e fortalecimento dos meios de subsistência locais.

No cronograma emergencial, as prioridades incluem a expansão de transferências de dinheiro para famílias em situação de vulnerabilidade extrema, o restabelecimento das unidades de saúde e nutrição fechadas e o apoio à produção agrícola por meio do fornecimento de sementes, ferramentas e assistência veterinária. As organizações alertam que, sem respostas rápidas e recursos adicionais, o progresso obtido após a seca de 2017 corre risco de reversão.

A Somália tem histórico de crises alimentares recorrentes, com episódios graves em 1992, 2011 e 2017. Em 2011, a fome declarada causou a morte estimada de 260 mil pessoas, mais da metade delas crianças. Atualmente, a combinação de choques climáticos, instabilidade política e restrições orçamentárias cria um ambiente em que a repetição de um quadro semelhante não pode ser descartada, caso não haja uma mobilização robusta da comunidade internacional.

As Nações Unidas e parceiros humanitários afirmam que continuarão monitorando de perto as condições climáticas e de mercado nas próximas semanas. Entretanto, sustentam que as tendências atuais sinalizam a urgência de reforçar os estoques de alimentos, garantir logística segura de distribuição e manter equipes de saúde e nutrição ativas em todo o território somali.

Crédito da imagem: WFP/Arete/Mahad Said

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