Desconfiança da população dificulta resposta ao ebola na República Democrática do Congo

O atual surto de ebola na República Democrática do Congo (RD Congo) completou um mês e continua a desafiar profissionais de saúde e organizações humanitárias. Embora a capacidade de diagnóstico tenha avançado de forma significativa, o ceticismo de parte da população, aliado ao medo e à dúvida sobre a gravidade da doença, ainda impede a detecção precoce de casos e dificulta a adoção de práticas de prevenção em diversas comunidades.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que exames de laboratório para identificar o vírus Bundibugyo, causador do surto, já estão disponíveis em seis cidades congolesas. Os testes são realizados em Bunia e Mongbwalu, na província de Ituri; Bukavu e Lwiro, em Kivu do Sul; Goma, em Kivu do Norte; além de Kinshasa, a capital. Fora do território congolês, quatro laboratórios foram ativados em Uganda, país que registrou infecções importadas da RD Congo.

Apesar desta ampliação, a OMS alerta para a existência de “pontos cegos” na busca ativa por pessoas infectadas. De acordo com a agência, ainda podem existir cadeias de transmissão não documentadas, o que significa que indivíduos portadores do vírus podem continuar circulando sem diagnóstico e infectando outros moradores. A identificação desses casos depende, em grande parte, da colaboração direta das comunidades.

No terreno, a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, parceira das Nações Unidas, descreve um cenário em que a barreira cultural pesa tanto quanto as questões clínicas. Em Bunia, epicentro da crise, equipes relatam que parte da população acredita que o surto foi inventado para atrair financiamento estrangeiro. Há também quem associe os enterros seguros — prática que isola o corpo para evitar contaminação — a um ataque aos costumes locais.

Essa percepção negativa tem reflexos imediatos na resposta à epidemia. Quando o medo prevalece, muitas pessoas deixam de relatar sintomas, adiando a procura por tratamento. Outros pacientes preferem permanecer em casa diante de febre ou mal-estar, receando o estigma que acompanha um diagnóstico positivo de ebola. Alguns familiares, por apego a tradições funerárias, tentam realizar sepultamentos sem orientação profissional, desconhecendo o alto risco de contágio no contato direto com o corpo.

Para vencer essa resistência, as equipes humanitárias adotam estratégias específicas de aproximação. Entre as adaptações implementadas está o uso de sacos especiais para cadáveres, dotados de uma janela transparente que permite aos parentes verem o rosto do falecido. O objetivo é respeitar o luto familiar e, ao mesmo tempo, assegurar as medidas de biossegurança necessárias para evitar novas infecções.

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Imagem: Internet

Especialistas em resposta a surtos explicam que o estabelecimento de confiança é tarefa gradual. O processo inclui reuniões comunitárias, escuta ativa das preocupações locais e demonstração prática dos benefícios de um tratamento precoce. Sem a cooperação direta dos moradores, alertam os profissionais, torna-se impossível localizar casos iniciais, monitorar contatos ou garantir enterros que não exponham parentes e vizinhos ao vírus.

A OMS reforça que a transparência na comunicação de riscos continua sendo prioridade. Além da oferta de testes em mais localidades, a agência destaca a necessidade de difundir informações claras sobre sintomas, formas de transmissão e procedimentos de isolamento. Paralelamente, a Cruz Vermelha mantém equipes treinadas em apoio psicossocial, buscando reduzir o estigma associado à doença e incentivar a procura por cuidados médicos imediatos.

Com o surto somando trinta dias, o balanço oficial de casos e mortes segue em revisão diária, condicionado à capacidade de notificação em regiões remotas. Enquanto laboratórios adicionais ampliam o alcance do diagnóstico, autoridades sanitárias insistem que vencer o ebola exige mais do que infraestrutura hospitalar: requer a participação ativa da população, o entendimento dos riscos e a aceitação das medidas de controle. Sem dissipar o ceticismo que ainda paira sobre parte da RD Congo, a epidemia poderá manter rotas invisíveis de transmissão e comprometer os esforços globais de contenção.

Crédito da imagem: OMS/Joël Lumbala

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