A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório que contabiliza 1,5 milhão de mortes e 866 milhões de casos de doenças por ano provocados por alimentos contaminados em todo o mundo. O documento, publicado às vésperas do Dia Mundial da Segurança Alimentar, celebrado em 7 de junho, descreve a insegurança alimentar como uma crise silenciosa que impõe perdas humanas e econômicas expressivas.
Impacto desproporcional sobre crianças
Crianças menores de cinco anos concentram parcela significativa das ocorrências. Nessa faixa etária, episódios de diarreia aguda podem ser fatais, e a exposição a contaminantes químicos deixa sequelas permanentes. Entre as substâncias citadas estão o chumbo e o metilmercúrio, que prejudicam o desenvolvimento neurológico, comprometem a aprendizagem e geram problemas cognitivos irreversíveis.
Substâncias químicas lideram a mortalidade
Embora microrganismos como bactérias e vírus representem a maioria das infecções, os contaminantes químicos respondem por 73 % das mortes associadas à alimentação insegura. O arsênio inorgânico, ligado ao surgimento de cânceres e doenças cardiovasculares no longo prazo, responde por 42 % dos óbitos causados por produtos químicos. Já o chumbo, introduzido na cadeia alimentar por fontes naturais ou por poluição industrial, responde por 31 % dessas fatalidades ao elevar drasticamente o risco de problemas cardíacos em adultos.
Segundo a OMS, depois que metais pesados se integram à cadeia de produção, sua remoção se torna praticamente inviável. A organização recomenda que governos adotem controles industriais rígidos e regulamentação ambiental severa para limitar a liberação dessas substâncias.
Desigualdade geográfica acentuada
A distribuição dos casos não é homogênea. África e Sudeste Asiático somam quase 75 % de todas as doenças transmitidas por alimentos no planeta e 60 % das mortes. Infraestrutura sanitária limitada, sistemas de saúde fragilizados e maior exposição a água não tratada estão entre os fatores que elevam a vulnerabilidade dessas regiões.
Clima e resistência antimicrobiana ampliam riscos
Yuki Minato, responsável técnica da OMS e autora principal do estudo, destaca dois fatores que ampliam a ameaça. A mudança climática modifica padrões de temperatura e umidade, favorecendo contaminações biológicas nas colheitas e a proliferação de toxinas. Paralelamente, a resistência antimicrobiana dificulta o tratamento de infecções alimentares anteriormente consideradas simples, tornando-as potencialmente letais.
Imagem: OMS/Opas
Abordagem de saúde única
O relatório defende uma estratégia de “saúde única”, que envolve de forma integrada a saúde humana, animal, vegetal e ambiental. A OMS sugere que os países eliminem barreiras entre os setores de saúde, agricultura e meio ambiente para criar respostas coordenadas. Conforme a entidade, adiar tais medidas implica a continuação de perdas evitáveis.
Nova plataforma de dados
Para orientar ações nacionais, a OMS planeja lançar uma plataforma digital interativa que reunirá, pela primeira vez, informações específicas de cada país sobre contaminação alimentar. A ferramenta pretende ajudar governos a mapear riscos locais, priorizar investimentos em saneamento, incentivar a pasteurização e reforçar a vigilância sanitária. O objetivo é converter estatísticas em políticas públicas baseadas em evidências.
Dia Mundial da Segurança Alimentar
A publicação do estudo antecede o Dia Mundial da Segurança Alimentar, cujo lema neste ano é “Do fardo às soluções: comida segura em todos os lugares”. A data visa mobilizar autoridades, setor privado e sociedade civil para implementar padrões rigorosos ao longo da cadeia produtiva, reduzir a exposição a agentes nocivos e proteger populações vulneráveis, especialmente crianças pequenas.
Crédito da imagem: OMS/Yoshi Shimizu




