Profissionais de saúde lusófonas defendem centralidade de gênero na Assembleia Mundial da Saúde

Radar da Saúde

Representantes de países de língua portuguesa que atuam no setor de saúde estão reunidas em Genebra, na Suíça, ao longo desta semana, para participar da 77ª Assembleia Mundial da Saúde. Vinculadas ao movimento Women in Global Health (WGH) – rede que estimula a liderança feminina nos sistemas de saúde –, elas insistem que a perspectiva de gênero deve orientar as decisões sobre governança, financiamento e implementação de políticas sanitárias.

O grupo lusófono da WGH reúne profissionais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. De acordo com a organização, as mulheres compõem cerca de 70% da força de trabalho na saúde mundial, mas ocupam apenas 25% dos postos de direção, o que reforça a necessidade de um espaço de articulação que amplifique vozes historicamente sub-representadas.

A portuguesa Jalmira Mulechante, doutora em Farmácia e presidente da WGH voltada à comunidade lusófona, explica que a Assembleia funciona como um fórum estratégico para a construção de sistemas de saúde “mais resilientes e colaborativos”. Ela destaca iniciativas de cooperação transfronteiriça no combate à malária e a doenças tropicais negligenciadas – problemas que afetam diversos países lusófonos em quatro continentes. “A presença da lusofonia neste palco global mostra que a nossa voz também importa”, afirma.

Para a brasileira Raquel Peck, cofundadora da WGH lusófona, os debates acompanhados em Genebra evidenciam a urgência de tratar gênero como tema transversal. “Não se pode relegar a igualdade de gênero a um item pontual da pauta; ela precisa permear toda a estrutura dos sistemas de saúde”, resume. Peck participa de encontros paralelos que analisam financiamento da saúde global, crise de recursos, cobertura universal e acesso equitativo a medicamentos. Também acompanha discussões sobre saúde mental e sobre a chamada “eliminação tripla” – estratégia que busca erradicar a transmissão vertical do HIV, da hepatite B e da sífilis.

A psicóloga brasileira Bárbara Vieira, pesquisadora em saúde global e integrante da WGH, reforça que o enfoque de gênero deve extrapolar a tradicional associação com saúde sexual e reprodutiva. “Gênero é central para todos os temas em saúde global”, observa. Segundo ela, a área de saúde mental ilustra a distância entre impacto e investimento: embora transtornos mentais figurem entre as principais causas de incapacidade no mundo, muitos países destinam menos de 1% de seus orçamentos de saúde a serviços de cuidado psicológico, e alguns sequer contam com rubrica específica.

As participantes relatam que o financiamento insuficiente da saúde mental representa desafio comum às nações lusófonas. Elas apontam carência de profissionais especializados, oferta limitada de serviços comunitários e estigma cultural como barreiras que agravam o cenário. Em paralelo, defendem que a alocação de recursos deve considerar recortes de gênero, uma vez que mulheres são desproporcionalmente afetadas por fatores de risco como violência doméstica, sobrecarga de trabalho informal de cuidado e menor acesso a renda.

Além das agendas formais da Assembleia, o grupo prepara um webinar sobre saúde menstrual marcado para 28 de maio, Dia Internacional de Ação pela Saúde da Mulher. O evento online reunirá pesquisadoras, representantes de organizações civis e autoridades de países lusófonos para discutir dados científicos, experiências comunitárias e perspectivas institucionais. A WGH avalia que a menstruação é componente fundamental de saúde pública e de equidade, mas ainda sofre influência de determinantes sociais, econômicos, culturais e políticos que limitam o acesso a informações, produtos higiênicos adequados e serviços de saúde.

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Imagem: Internet

As organizadoras pretendem usar o webinar como plataforma de advocacy, reforçando que a saúde menstrual constitui um direito humano e deve integrar as políticas nacionais de forma explícita. Entre as metas estão a redução de impostos sobre absorventes, a distribuição gratuita de produtos em escolas e unidades básicas de saúde e a inclusão de conteúdos sobre ciclo menstrual em currículos educacionais.

Ao longo dos trabalhos em Genebra, as profissionais lusófonas articulam ainda a elaboração de recomendações conjuntas para os ministérios da Saúde de seus países. Elas devem abordar, entre outros pontos, a adoção de indicadores de gênero no monitoramento de políticas, a criação de programas de mentoria para mulheres em posições técnicas e a garantia de representação feminina em instâncias decisórias internacionais.

A Assembleia Mundial da Saúde, órgão deliberativo máximo da Organização Mundial da Saúde, reúne delegações de 194 Estados-membros e termina em 1º de junho. As resoluções aprovadas podem orientar prioridades globais em áreas como preparação para emergências, financiamento sustentável da OMS e metas para a Agenda 2030.

Crédito da imagem: ONU Mulheres/Rossana Fraga

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