Programa brasileiro forma surfistas como salva-vidas e recebe reconhecimento da OMS

Um programa criado no Brasil há 26 anos para capacitar surfistas em técnicas de salvamento foi elogiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como exemplo de ação comunitária contra o afogamento. Conhecida como Surf-Salva, a iniciativa da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa) já treinou mais de 40 mil praticantes do esporte para atuar como socorristas qualificados, elevando a vigilância nas praias e ampliando as chances de resposta rápida em emergências na água.

O reconhecimento internacional ocorre em um contexto preocupante. Segundo dados compartilhados pela OMS, o afogamento provoca uma morte a cada 90 minutos no Brasil e figura entre as principais causas de óbitos acidentais no mundo, somando mais de 236 mil vítimas anuais. A agência estima que 90% desses registros estão concentrados em países de baixa e média renda, situação que reforça a necessidade de estratégias acessíveis e de baixo custo para reduzir riscos.

No cenário nacional, crianças menores de cinco anos aparecem entre os grupos mais vulneráveis, ao lado de jovens que frequentam o litoral em grande número. Nessa realidade, transformar surfistas em agentes de proteção representa um avanço relevante, pois o esporte faz parte da identidade cultural de inúmeras comunidades costeiras e está presente em praticamente todo o litoral brasileiro.

Os cursos do Surf-Salva incluem técnicas avançadas de resgate específicas para ambientes de mar aberto, protocolos de primeiros socorros e manobras de ressuscitação cardiopulmonar voltadas a vítimas de afogamento. As aulas abordam desde a avaliação das correntes até o uso adequado da prancha como instrumento de flutuação durante o socorro. Além do treinamento prático, os participantes recebem orientações sobre prevenção, comunicação de perigo e conscientização de banhistas e turistas.

Com a difusão desse conhecimento entre atletas que passam grande parte do tempo na água, o programa descentraliza a capacidade de resposta normalmente restrita a guarda-vidas profissionais. Cada surfista habilitado torna-se um ponto de apoio imediato em situações críticas, contribuindo para reduzir o intervalo entre o início do incidente e o atendimento à vítima — fator decisivo para aumentar as chances de sobrevivência.

A abordagem também fortalece a participação cidadã recomendada pela OMS, que sinaliza a urgência de decisões integradas entre governos, organizações da sociedade civil e comunidades locais para conter o avanço dos afogamentos. Ao associar prevenção a uma atividade esportiva de forte apelo popular, o Surf-Salva demonstra como iniciativas comunitárias podem se alinhar a metas globais de saúde pública sem demandar grandes investimentos em infraestrutura.

Outra frente relevante do projeto envolve campanhas educativas realizadas em escolas, eventos esportivos e pontos turísticos, nas quais ex-alunos compartilham orientações sobre perigos específicos de cada região, como buracos de corrente, arrebentações fortes ou variações súbitas de profundidade. Dessa forma, o conhecimento adquirido durante o treinamento se multiplica e alcança moradores e visitantes que, muitas vezes, desconhecem os riscos presentes na costa.

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Imagem: Internet

A proximidade do Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, celebrado em 25 de julho, reforça a importância de iniciativas semelhantes. A data, instituída pela ONU, busca chamar a atenção para medidas de baixo custo que podem salvar vidas, como ensinamento de natação, sinalização de áreas perigosas e capacitação de membros da comunidade. O sucesso do Surf-Salva ilustra como a combinação dessas ações com a cultura local pode potencializar resultados.

Embora tenha nascido no Brasil, o modelo adotado pelo programa desperta interesse de especialistas internacionais, que veem na capacitação de surfistas uma solução replicável em outras nações com extensos litorais e alto índice de afogamentos. Para a OMS, experiências que envolvem segmentos sociais já inseridos no ambiente aquático oferecem caminho promissor para ampliar a cobertura de vigilância em países com recursos limitados.

Enquanto novas turmas continuam sendo formadas em diversos estados, a Sobrasa trabalha para expandir parcerias com escolas de surfe, prefeituras e órgãos de turismo, a fim de aumentar o número de voluntários treinados e consolidar uma rede de prevenção que acompanhe a crescente circulação de pessoas nas praias. O objetivo é simples: garantir que cada sessão de surfe também represente uma oportunidade adicional de proteger vidas.

Crédito da imagem: OMS / Unsplash

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