Pacientes que contraem o vírus da dengue apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas semanas subsequentes à doença. Estudo conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres indica que, nas seis semanas após o início dos sintomas de dengue, o risco de SGB sobe 17 vezes em relação à população não infectada. Nas duas primeiras semanas, o aumento alcança 30 vezes.
Os resultados foram publicados na revista New England Journal of Medicine e se baseiam na análise de três grandes bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS): internações hospitalares, notificações de dengue e registros de óbitos. Entre 2023 e 2024, mais de 5 mil internações motivadas por SGB foram identificadas; em 89 delas, a síndrome ocorreu logo após um episódio confirmado de dengue.
Quando convertidos para números absolutos, os dados sugerem que, a cada 1 milhão de casos de dengue, 36 pessoas podem apresentar SGB. Embora o total represente uma fração pequena diante do universo de infectados, os pesquisadores consideram a cifra relevante, sobretudo em um cenário de epidemias recorrentes no Brasil, que já contabilizou mais de 6 milhões de notificações prováveis de dengue em 2024.
A Síndrome de Guillain-Barré é uma condição neurológica rara em que o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos. O quadro costuma iniciar com fraqueza muscular nas pernas, podendo progredir para braços, face e, em casos graves, afetar a respiração. A evolução pode levar à paralisia completa e exigir ventilação mecânica. Embora a maioria dos pacientes se recupere, a reabilitação pode durar meses ou anos, e parte deles permanece com sequelas permanentes.
O levantamento ressalta ainda a velocidade com que a dengue se expandiu globalmente. Em 2024, foram registrados 14 milhões de casos no mundo, número superior ao observado para qualquer outra doença transmitida por mosquitos. A Fiocruz destaca que, diante desse panorama, gestores de saúde pública precisam incorporar a SGB aos protocolos de vigilância como possível complicação pós-dengue.
Entre as recomendações, o estudo sugere a preparação de unidades de saúde para identificar sinais precoces de fraqueza muscular durante surtos de dengue, além de assegurar disponibilidade de leitos de terapia intensiva e suporte ventilatório. Também orienta acionar estratégias de vigilância ativa para SGB nas semanas imediatamente posteriores ao pico de infecções.
Para profissionais de saúde, a orientação prática é suspeitar da síndrome em pacientes com histórico de dengue nas últimas seis semanas que apresentem sintomas como formigamento ou perda de força nos membros inferiores. O tratamento de escolha — imunoglobulina ou plasmaférese — é mais eficaz quando iniciado rapidamente, o que reforça a importância do diagnóstico precoce.
Imagem: Radar da Saúde
Os pesquisadores ressaltam a necessidade de notificar todos os casos de SGB relacionados à dengue aos sistemas municipal e estadual de vigilância epidemiológica. Esse procedimento contribui para dimensionar a real magnitude do problema e formular respostas adequadas em futuras epidemias.
Atualmente não existe terapia antiviral específica para a dengue; o manejo clínico baseia-se em hidratação adequada e monitoramento de sinais de alerta. Nesse contexto, medidas de prevenção ganham importância redobrada. O estudo destaca o controle do Aedes aegypti — vetor do vírus — e a vacinação como estratégias mais eficazes para reduzir o número de infectados e, por consequência, o de complicações graves como a SGB.
A relação entre arboviroses e manifestações neurológicas não é inédita. Durante a epidemia de Zika em 2015 e 2016, registrou-se aumento expressivo de casos de SGB em adultos, além da associação entre o vírus e microcefalia em bebês. Dengue e Zika pertencem à mesma família viral, o que reforça a necessidade de monitoramento contínuo das complicações pós-infecção.
Para os autores, enquanto não houver medicamento antiviral eficaz contra a dengue, o foco deve permanecer na prevenção. Reduzir o contágio significa evitar a sobrecarga dos serviços de saúde e minimizar o risco de desfechos severos, como a paralisia decorrente da Síndrome de Guillain-Barré.
Crédito da imagem: nuzeee/Pixabay




