Na semana em que se celebram o Dia Mundial da Saúde e o Dia Mundial de Combate ao Câncer, o diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Wadih Damous, afirmou que o sistema brasileiro de planos de saúde precisa abandonar a lógica reativa, centrada no tratamento de doenças já instaladas, e adotar a prevenção e a promoção da saúde como eixos estruturantes. Segundo ele, a mudança de paradigma é essencial para garantir sustentabilidade financeira, preservar vidas e elevar a qualidade de vida dos usuários.
A ANS, órgão regulador vinculado ao Ministério da Saúde, supervisiona um mercado que atende mais de 53 milhões de beneficiários. Damous sustenta que grande parte das despesas atuais das operadoras decorre do manejo de complicações evitáveis ou tratáveis quando diagnosticadas precocemente. Doenças crônicas como diabetes, hipertensão e obesidade, exemplifica, consomem recursos elevados justamente porque se chega tarde ao diagnóstico ou ao cuidado adequado.
Para o dirigente, a gestão “inteligente” da saúde exige a transição do modelo de pagamento por volume, que incentiva procedimentos em excesso, para mecanismos baseados em geração de valor. Linhas de cuidado planejadas, programas de prevenção e acompanhamento contínuo, argumenta, reduzem custos e melhoram resultados clínicos. “Até do ponto de vista de quem busca lucratividade, prevenir é mais barato do que tratar”, resume.
Damous classifica prevenção e promoção como “parâmetros imprescindíveis” e propõe um diálogo amplo com operadoras, prestadores de serviços, hospitais e clínicas. O objetivo é construir, de forma pactuada, um novo desenho assistencial. Ele se mostra otimista ao avaliar que evidências sobre redução de despesas podem sensibilizar os diversos atores econômicos a aderirem às mudanças.
Outro ponto enfatizado é o letramento em saúde. O diretor-presidente defende campanhas permanentes para que os beneficiários compreendam a importância de consultas regulares, exames periódicos, atividade física e alimentação equilibrada. Na visão dele, a iniciativa deve ser liderada pelo Ministério da Saúde, com a ANS atuando como multiplicadora junto ao setor privado. Operadoras seriam estimuladas a usar seus canais de comunicação, orientar médicos e hospitais credenciados e incluir programas preventivos nos próprios produtos.
O crescimento dos casos de câncer preocupa o órgão regulador. De acordo com Damous, em mais de 700 municípios brasileiros diversos tipos de câncer já ultrapassaram as doenças cardiovasculares como principal causa de adoecimento. Projeções indicam que, até 2029, o câncer será a enfermidade de maior incidência no país, cenário que já ocorre em nações industrializadas com população mais envelhecida. A ANS defende ação conjunta entre saúde pública e suplementar para enfrentar o avanço da doença.
Nesse contexto, ganhou relevância a lei sancionada no início da semana que determina a divulgação de informações sobre vacinação contra o HPV e sobre cânceres de mama, colo do útero e próstata. O texto também prevê a incorporação, no Sistema Único de Saúde, de tratamentos de imunoterapia para até 40 tipos de câncer. A agência já autoriza algumas modalidades de imunoterapia em seu rol de coberturas; contudo, a ampliação prevista na legislação deve levar à inclusão de novos procedimentos e demandará análise do impacto regulatório e financeiro sobre os planos.
Imagem: Radar da Saúde 15
Damous avalia que facilitar o afastamento do trabalho para realização de exames preventivos contribui diretamente para a detecção precoce e o sucesso terapêutico. Muitos tumores, ressalta, são quase 100% curáveis quando descobertos em estágio inicial. A ausência de diagnóstico oportuno, por outro lado, resulta em tratamentos mais caros, sequelas irreversíveis e mortalidade evitável.
A saúde mental também integra a agenda da agência. Relatórios da Organização Mundial da Saúde apontam crescimento epidêmico de transtornos como depressão, síndrome de Burnout e casos de suicídio. O dirigente apoia a proposta governamental de extinguir a jornada 6×1 — que concede apenas um dia de descanso por semana —, argumentando que a falta de tempo para lazer, convívio familiar e atividades culturais agrava problemas psíquicos e, em consequência, doenças crônicas físicas. Para Damous, a saúde suplementar não pode permanecer alheia ao tema.
Ao reiterar que a saúde suplementar deve ser vista como um sistema integrado e não como um conjunto isolado de empresas, o diretor-presidente da ANS reforça que as ações de prevenção, promoção e educação em saúde precisam ser incorporadas aos contratos, rotinas assistenciais e políticas de comunicação das operadoras. A expectativa é que a convergência entre interesses econômicos, evidências clínicas e demandas de usuários leve à construção de um modelo assistencial mais eficiente, sustentável e centrado na manutenção da saúde.
Crédito da imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil




