Países de língua portuguesa reforçam cooperação nuclear pacífica para diagnóstico e tratamento do câncer

Radar da Saúde

A utilização da tecnologia nuclear para fins pacíficos vem aproximando os países de língua portuguesa em projetos que vão do tratamento oncológico à produção agrícola. Sob a coordenação da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal integram iniciativas que buscam ampliar o acesso a diagnósticos por imagem, radioterapia e aplicações na gestão de recursos naturais.

A colaboração faz parte do programa Átomos pela Vida, mantido pela AIEA para difundir soluções nucleares em saúde, agricultura e segurança alimentar. De acordo com o diretor-adjunto do Escritório de Ligação da agência em Nova Iorque, Nuno Luzio, as ações respondem a crises concretas, com destaque para o câncer. Estudos da entidade indicam que entre 50% e 60% de todos os pacientes oncológicos necessitam de radioterapia em algum momento do tratamento, procedimento que depende diretamente de tecnologia nuclear.

O uso do idioma português facilita a formação de redes técnicas, permitindo que conhecimento especializado circule entre instituições médicas e centros de pesquisa. Brasil e Portugal despontam como principais provedores de expertise. O primeiro mantém um programa nuclear ambicioso, assento no Conselho de Governadores da AIEA e ampla base de recursos humanos; o segundo, mesmo sem centrais de geração de energia nuclear, acumula tradição em física, engenharia e medicina nuclear.

Angola e Moçambique concentram esforços em ampliar infraestrutura e capacitação. Cabo Verde, admitido em 2023 como Estado-membro da AIEA, inicia agora o desenho de projetos de cooperação. Segundo Luzio, a troca de experiências tem impacto direto em hospitais e laboratórios, aproximando profissionais de diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico.

Entre os exemplos mais recentes, três técnicos de radioterapia e dois enfermeiros do Hospital Central de Maputo, em Moçambique, passaram por estágio no Brasil para aperfeiçoar práticas clínicas. Anos antes, Portugal concedeu 50 bolsas com isenção de propinas em 20 cursos de mestrado voltados a física e medicina nuclear para estudantes de nações africanas lusófonas, reforçando a formação avançada de quadros locais.

No âmbito clínico, o apoio da AIEA cobre todo o percurso do paciente. Equipamentos de imagiologia nuclear aumentam a precisão na detecção de tumores em estágios iniciais; aceleradores lineares e fontes de cobalto permitem radioterapia direcionada; por fim, protocolos de cuidados paliativos asseguram alívio de sintomas e melhor qualidade de vida. A adoção dessas ferramentas eleva as taxas de sucesso terapêutico e reduz custos de longo prazo para os sistemas públicos de saúde.

A dimensão demográfica também impulsiona a cooperação. Com o aumento da expectativa de vida em África e na América Latina, a incidência de câncer cresce de forma consistente. Nessa conjuntura, a ampliação da oferta de serviços de radioterapia torna-se prioridade para governos que buscam equilibrar demandas sanitárias e recursos limitados.

Fora do campo médico, a ciência nuclear tem sido aplicada na agricultura de precisão, permitindo avaliar a qualidade do solo, otimizar o uso de fertilizantes e monitorar recursos hídricos. Técnicas de irradiação de alimentos prolongam a validade de sementes e reduzem perdas pós-colheita, aspectos considerados estratégicos para segurança alimentar em regiões vulneráveis a secas ou instabilidade climática.

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Imagem: Internet

Nos cinco países, projetos financiados pela AIEA incluem ainda o controle de pragas por meio da técnica do inseto estéril, que utiliza radiação para esterilizar machos e diminuir populações de vetores agrícolas sem recorrer a pesticidas em larga escala. A mesma metodologia tem sido estudada para combater mosquitos transmissores de doenças urbanas, caso da dengue e da malária.

Para Nuno Luzio, a experiência linguística e histórica compartilhada pelos Estados lusófonos cria ambiente favorável à solidariedade científica. Ao combinar recursos humanos formados no Brasil e em Portugal com as necessidades estruturais de Angola, Cabo Verde e Moçambique, a comunidade de língua portuguesa adota um modelo de cooperação horizontal, no qual cada país contribui segundo sua especialidade e capacidade operacional.

A AIEA pretende expandir o programa Átomos pela Vida nos próximos anos, reforçando laboratórios regionais e promovendo novos ciclos de treinamento. A meta é reduzir desigualdades no acesso a tecnologias nucleares essenciais, consolidando a rede de hospitais, universidades e centros de pesquisa que hoje compõem o núcleo da cooperação lusófona.

Com a perspectiva de aumentar a carga global de câncer e a demanda por alimentos de qualidade, os países de língua portuguesa enxergam na ciência nuclear uma ferramenta para acelerar o desenvolvimento socioeconômico, preservar vidas e garantir maior autonomia tecnológica em setores críticos.

Crédito da imagem: Unicef/Karel Prinsloo

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