A Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou, no início deste mês, um workshop interregional de treinamento sobre medicina tradicional na Região Administrativa Especial de Macau, na China. O encontro reuniu autoridades sanitárias, reguladores e especialistas de vários continentes com a finalidade de ampliar a capacidade dos Estados-membros de garantir padrões de qualidade e segurança tanto nas práticas quanto no exercício profissional dessa modalidade de cuidado.
Com apoio do governo local, que tem o português como uma de suas línguas oficiais, a iniciativa marcou um novo passo nos debates internacionais voltados à integração de terapias tradicionais, complementares e integrativas aos sistemas formais de saúde. Durante três dias, os participantes trocaram experiências em painéis técnicos, analisaram estudos de caso apresentados por diferentes países e discutiram em grupos os caminhos para aperfeiçoar marcos regulatórios e fortalecer a qualificação de profissionais do setor.
Segundo a diretora do Centro Global de Medicina Tradicional da OMS, Shyama Kuruvilla, o foco atual da agência passou a ser a adoção responsável dessas práticas, e não mais a discussão sobre sua pertinência. A programação do workshop refletiu essa mudança de perspectiva ao concentrar-se em temas como formulação de políticas públicas, modelos de oferta de serviços e exigências de formação acadêmica ou técnica para terapeutas, fitoterapeutas e demais profissionais envolvidos.
O treinamento faz parte da implementação da Estratégia Global da OMS para Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa 2025-2034 e está alinhado ao 14º Programa Geral de Trabalho da organização. Entre os objetivos desse planejamento de longo prazo estão a criação de marcos regulatórios harmonizados, o desenvolvimento de mecanismos de monitoramento da segurança dos usuários e a promoção de pesquisas que avaliem eficácia, custo-benefício e impactos na saúde pública.
Durante o evento, os representantes de governos relataram desafios e avanços já observados em seus respectivos países. Questões como padronização de produtos fitoterápicos, exigências para o registro de remédios de origem vegetal, critérios para credenciamento de profissionais e modelos de reembolso pelo sistema público ou por planos privados foram debatidos em sessões temáticas. Também houve espaço para discussão sobre sistemas de informação em saúde capazes de registrar eventos adversos e acompanhar resultados terapêuticos.
Além das atividades técnicas, a programação incluiu visitas de campo a instituições locais ligadas à medicina tradicional chinesa. Os participantes puderam observar a produção de fitoterápicos, assistir a demonstrações de acupuntura e conhecer práticas de diagnóstico e prescrição que integram saberes milenares e protocolos modernos de controle de qualidade. As vivências culturais foram consideradas pelos organizadores um complemento importante para promover entendimento intercultural e identificar elementos passíveis de adaptação em outros contextos nacionais.
Imagem: Internet
Macau mantém cooperação com a OMS desde 2015, quando ali foi inaugurado o Centro Colaborador da organização para Medicina Tradicional Chinesa. Ao dar as boas-vindas aos delegados, o diretor dos Serviços de Saúde da região, Lo Iek Long, reiterou o compromisso local com a consolidação do setor e lembrou que a parceria com a agência das Nações Unidas tem contribuído para o desenvolvimento de protocolos de segurança e avaliação de qualidade aplicáveis a outros países.
Ao final do workshop, a equipe técnica da OMS recolheu os principais pontos levantados pelos Estados-membros sobre necessidades e prioridades atuais. Entre eles, destacam-se a demanda por diretrizes globais de formação profissional, referências internacionais para controle de qualidade de produtos fitoterápicos e mecanismos de cooperação científica capazes de gerar evidências sólidas sobre eficácia e segurança. Os insumos colhidos alimentarão a atualização de documentos normativos e ações previstas para a próxima década dentro da estratégia global.
Com a conclusão dos trabalhos em Macau, a OMS planeja organizar encontros regionais adicionais para dar continuidade à troca de experiências e monitorar a implementação das recomendações. A expectativa é que, ao longo dos próximos anos, mais países adotem políticas integrativas que incorporem práticas tradicionais de forma segura, alinhada às exigências de evidência científica e sujeita a sistemas de regulação comparáveis aos já consolidados para a medicina convencional.
Crédito da imagem: ONU Notícias/Anshu Sharma




