Genebra, 31 de maio – O Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado nesta sexta-feira, concentra suas ações de 2026 em desmascarar o apelo comercial que mantém crianças e adolescentes presos à dependência de nicotina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que empresas de tabaco e produtos derivados ajustam permanentemente embalagens, sabores e campanhas digitais para conquistar novos consumidores ainda na adolescência, mas sublinha que o ciclo de vício pode ser interrompido por meio de políticas públicas rigorosas e apoio ao abandono do fumo.
Uso de nicotina entre adolescentes
Dados globais reunidos pela OMS indicam que 15 milhões de jovens de 13 a 15 anos já utilizam cigarros eletrônicos, enquanto aproximadamente 40 milhões da mesma faixa etária consomem algum produto de tabaco. Nos países que dispõem de estatísticas, adolescentes apresentam probabilidade nove vezes maior de usar dispositivos eletrônicos de vaporização em comparação aos adultos. O cenário é particularmente preocupante na Região Europeia: 11,6% dos adolescentes de 13 a 15 anos consomem tabaco, e 14,3% recorrem a cigarros eletrônicos, com taxas semelhantes entre meninos e meninas. A região concentra ainda a maior prevalência de tabagismo feminino adolescente do mundo, estimada em 8,7%.
Medidas preconizadas pela OMS
A campanha deste ano, conduzida sob o lema “Desmascarar o apelo: combatendo a dependência de tabaco e nicotina”, propõe um conjunto de ações dirigido a governos e sociedade civil. Entre as recomendações destacam-se:
- Proibição de sabores que aumentem a atratividade de cigarros, vapes e sachês de nicotina.
- Regulamentação do design dos produtos, limitando formatos, cores e dispositivos que despertem interesse juvenil.
- Banimento de publicidade, promoção e patrocínio, inclusive em mídias digitais, redes sociais e ações com influenciadores.
- Adoção de embalagens padronizadas, sem elementos promocionais, para reduzir o apelo visual.
- Manutenção de espaços públicos 100% livres de fumo e aerossóis, garantindo ar limpo como direito coletivo.
- Ampliação de serviços de apoio à cessação, com oferta de tratamento e aconselhamento.
- Elevação de impostos voltados a tornar produtos de tabaco e nicotina menos acessíveis financeiramente.
Táticas de marketing digital e novos produtos
Segundo a OMS, a indústria tem diversificado a oferta com nicotina sintética e sachês comercializados como itens “livres de tabaco”, reforçando mensagens de modernidade e discrição. Estratégias incluem embalagens sofisticadas, campanhas com influenciadores, patrocínio de eventos voltados à juventude e segmentação de anúncios em redes sociais, muitas vezes sem mencionar os riscos de dependência. Relatório global apresentado em webinar prévio ao 31 de maio apontou que a velocidade de lançamento desses produtos supera a capacidade regulatória de vários países, exigindo resposta coordenada e contínua.
Reconhecimento a ações de controle do tabaco
Todos os anos, a OMS premia iniciativas exemplares nas seis regiões em que opera. Em 2026, o Brasil é o único país lusófono entre os agraciados. O Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar foi reconhecido por políticas baseadas nos Artigos 17 e 18 da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, oferecendo assistência técnica e crédito a famílias que buscam alternativas econômicas ao cultivo de tabaco. Também recebeu distinção Mônica Andreis, diretora-presidente da ACT Promoção da Saúde, pelo trabalho de advocacy que incluiu a defesa da tributação de produtos de tabaco na atual proposta de reforma tributária brasileira, mesmo sob forte pressão do setor.
Imagem: explo
Papel dos formuladores de políticas
No portal institucional, a OMS reforça que a implementação simultânea de várias medidas potencializa resultados: embalagens neutras reduzem a iniciação; impostos altos desencorajam o consumo; ambientes livres de fumo protegem terceiros e reforçam normas sociais; e serviços de cessação quebram o ciclo de dependência em adultos, reduzindo a exposição de crianças ao exemplo de fumaça em casa. A agência recomenda que países que já proíbem a venda de cigarros eletrônicos redobrem a fiscalização para garantir cumprimento da lei e evitar comércio ilícito.
Para a OMS, a prioridade é impedir que uma nova geração seja capturada por produtos nicotínicos. Ao expor práticas de marketing direcionadas a menores de idade, a organização pretende fortalecer legisladores, educadores e famílias na construção de ambientes onde a iniciação ao uso de nicotina não seja vista como comportamento socialmente aceitável nem economicamente estimulada por preços baixos. Com políticas integradas, enfatiza a agência, é possível reduzir de forma substancial a carga de doenças associadas ao tabaco e proteger o futuro de milhões de jovens em todo o mundo.
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