Um programa articulado pela Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), pela Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e pela Administração Distrital da ilha tem permitido que famílias com crianças neuroatípicas utilizem canabidiol (CBD) como recurso terapêutico. A iniciativa, conhecida como Projeto Noronha, realizou dois mutirões de atendimento – em fevereiro e em maio de 2026 – somando 126 consultas médicas gratuitas e a entrega de 221 frascos de óleo de CBD a moradores do arquipélago.
A ação atende um contexto em que Fernando de Noronha dispõe de apenas um hospital público, o São Lucas, com cobertura de média complexidade. Para procedimentos especializados, a população depende de deslocamento aéreo até Recife, a 545 quilômetros de distância. O isolamento geográfico agrava quadros de ansiedade, depressão e insônia, além de dificultar o manejo de condições neurológicas e do neurodesenvolvimento.
Nesse cenário, a professora Rayane Dixie dos Santos, 31 anos, encontrou no canabidiol um apoio para o filho de sete anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (suporte 2) e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Após iniciar o uso da substância em março, a família relata redução das crises de agitação e agressividade. A melhoria do comportamento da criança também refletiu na saúde da mãe, que enfrentava ansiedade generalizada decorrente da sobrecarga de cuidados e agora recebe acompanhamento psicológico dentro do projeto.
Outra beneficiária é Rebeca Allen, presidente da AMA-FN. Seu filho, de sete anos, tem transtorno do processamento sensorial e TDAH. A rotina levou Rebeca a desenvolver depressão e transtorno de ansiedade generalizada. Desde fevereiro, tanto ela quanto o menino utilizam o CBD. Segundo a mãe, houve avanço no controle da ansiedade, melhora na qualidade do sono e diminuição da agressividade da criança, o que facilitou a participação dele em terapias e atividades escolares.
Com base nos resultados preliminares, a Abecmed planeja retornar à ilha a cada três meses para manter o acompanhamento das famílias e treinar profissionais locais. Além disso, a Administração Distrital cedeu um terreno onde será construída a primeira sede física do projeto, destinada a oferecer orientações médicas, acolhimento psicológico e atividades de capacitação.
O relatório do segundo mutirão, concluído em maio, mostra que 70,6% dos atendimentos referiram demandas de saúde mental, enquanto 41,3% envolviam diagnósticos relacionados a neurodivergências. Entre os sintomas mais citados estavam ansiedade (25 registros), insônia (16) e dor crônica (11). Também foram identificados 10 casos de TEA, 10 de TDAH, dois de Transtorno Opositivo Desafiador e dois em investigação para transtornos do espectro autista ou de atenção.
Os médicos voluntários explicam que o canabidiol possui propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que auxiliam em condições como epilepsia, esquizofrenia, depressão e distúrbios do sono. No caso de pessoas com autismo, o composto atua no sistema endocanabinoide, reduzindo a hipersensibilidade a estímulos sensoriais e controlando comportamentos de agitação sem provocar sedação intensa. Dessa forma, a criança permanece ativa para participar de terapias ocupacionais, fonoaudiológicas e psicológicas, consideradas centrais no manejo do TEA.
Imagem: Radar da Saúde
Atualmente, dados da Abecmed indicam que o Brasil possui cerca de 672 mil pacientes em tratamento com derivados da cannabis. O crescimento do uso medicinal se intensificou após 2012, quando estudos passaram a evidenciar a segurança e a eficácia do canabidiol em transtornos neurológicos e psiquiátricos.
O Projeto Noronha pretende medir o impacto social e econômico de longo prazo da intervenção. Pesquisadores deverão acompanhar indicadores de adesão escolar, produtividade familiar e redução de deslocamentos ao continente. A instituição avalia que a criação de uma rede local permanente diminui custos para o sistema público de saúde e fortalece o suporte comunitário às mães, frequentemente responsáveis únicas pelos cuidados diários.
Enquanto o espaço definitivo não é inaugurado, o atendimento segue concentrado em mutirões trimestrais, com distribuição gratuita de óleos, consultas de avaliação e oficinas educativas sobre o uso correto do canabidiol. A expectativa é de que, com a nova sede, o atendimento passe a ocorrer de forma contínua, abrangendo também fisioterapia, psicologia e grupos de apoio, consolidando Fernando de Noronha como polo de referência no tratamento integrativo com cannabis para populações isoladas.
Crédito da imagem: Marcelo Krause/ICMBio




