A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) está reforçando ações de saúde pública ao lado de seus Estados-membros, com foco especial em nações de baixa e média rendas. A organização passou a utilizar técnicas de ciência nuclear em frentes como terapia oncológica, controle de doenças cardíacas, vigilância de zoonoses e avaliação nutricional, numa estratégia que associa laboratórios, capacitação profissional e captação de recursos.
Lançado em 2022, o programa Raios de Esperança representa a principal iniciativa da AIEA na área de oncologia. Mais de 100 países já aderiram ao plano, estruturado para expandir o acesso à radioterapia. Governos, instituições financeiras internacionais e empresas privadas participam da mobilização, que arrecadou até o momento mais de 90 milhões de euros destinados à compra de aceleradores lineares, mamógrafos e outros equipamentos vitais para o tratamento do câncer. A rede global ligada ao projeto formou cerca de 700 profissionais em medicina de radiação, ampliando a oferta de terapias seguras e de qualidade.
Paralelamente, a agência mantém cooperação com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer para realizar as avaliações conhecidas como imPACT. Esses estudos analisam capacidades nacionais de controle do câncer, identificam necessidades de infraestrutura e orientam a elaboração de planos de financiamento. O objetivo é garantir que países adotem estratégias sólidas para diagnóstico precoce, tratamento e acompanhamento dos pacientes.
No campo da medicina nuclear, a AIEA incentiva o uso de radiofármacos — substâncias que carregam pequenas quantidades de material radioativo — para diagnosticar e tratar uma série de enfermidades. A tecnologia permite detectar tumores em estágio inicial, mapear fraturas ósseas, avaliar doenças cardiovasculares e monitorar condições crônicas que comprometem tireoide, cérebro ou ossos. A radioterapia, por sua vez, emprega doses elevadas de radiação contra células malignas, minimizando o impacto em tecidos saudáveis adjacentes. Raios X e tomografias computadorizadas reforçam o conjunto de exames que dependem de radiação ionizante para produzir imagens internas do corpo.
Para garantir precisão nos procedimentos, a ONU mantém laboratórios de dosimetria que oferecem dois serviços principais: calibração e auditoria. A calibração assegura que as clínicas consigam medir corretamente as doses administradas, enquanto a auditoria verifica se a prescrição terapêutica está sendo aplicada de maneira adequada. Esses mecanismos elevam a segurança do paciente e a eficácia dos equipamentos de radiologia e radioterapia.
Além do câncer, a agência concentra esforços na prevenção de doenças zoonóticas — aquelas transmitidas de animais para seres humanos. Segundo a AIEA, patógenos dessa natureza respondem por 60% das infecções conhecidas e 75% dos surtos emergentes, gerando cerca de 2,6 bilhões de casos e 2,7 milhões de mortes anuais no mundo. Para enfrentar o problema, foi criada a iniciativa Ação Integrada contra Doenças Zoonóticas (Zodiac), que monitora agentes como bactérias, vírus, parasitas e fungos capazes de originar futuras pandemias.
Imagem: Internet
A agência também se dedica ao desafio da dupla carga de má nutrição, caracterizada pela coexistência de subnutrição e obesidade em diversas regiões. O quadro está diretamente ligado ao crescimento de enfermidades crônicas. Ao desenvolver e transferir técnicas nucleares e correlatas, a AIEA auxilia governos na coleta de dados sobre gasto energético, composição corporal, práticas de amamentação, absorção de nutrientes e saúde óssea. As informações orientam políticas para prevenir e controlar diferentes formas de má nutrição ao longo da vida.
Entre as metodologias destacam-se os métodos de isótopos estáveis, que medem com precisão o metabolismo e a ingestão de nutrientes, e as imagens médicas que avaliam a densidade mineral óssea. Médicos e profissionais de saúde pública recebem treinamento para aplicar essas ferramentas, interpretar resultados e implementar intervenções direcionadas a grupos vulneráveis.
Combinando pesquisa, capacitação e financiamento, a AIEA busca ampliar o impacto da tecnologia nuclear em sistemas de saúde. A expectativa é que a integração dos programas de oncologia, zoonoses e nutrição fortaleça a capacidade dos países em diagnosticar, tratar e prevenir doenças, reduzindo desigualdades no acesso a serviços essenciais.
Crédito da imagem: IAEA/Dean Calma




