Pesquisa nacional indica dificuldades no diagnóstico e no acesso a terapias para autistas no Brasil

Radar da Saúde

O primeiro levantamento sociodemográfico de abrangência nacional sobre transtorno do espectro autista (TEA), o Mapa Autismo Brasil (MAB), aponta que o diagnóstico e o tratamento continuam restritos para grande parte da população. O estudo, divulgado nesta quinta-feira (9) pelo Instituto Autismos, reuniu 23.632 entrevistas on-line realizadas de 29 de março a 20 de julho de 2025, abrangendo todos os estados.

Entre os participantes, 16.807 eram responsáveis por pessoas autistas, 4.604 eram adultos autistas e 2.221 se identificaram simultaneamente como autistas e cuidadores. O levantamento mostra que apenas 20,4% dos diagnósticos foram obtidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), proporção inferior à cobertura dos planos de saúde no país, estimada em cerca de um quarto da população. Para terapias, o cenário é ainda mais limitado: somente 15,5% utilizam exclusivamente a rede pública, enquanto 35,3% recorrem a convênios, 28,5% pagam de forma particular e 7,9% buscam apoio em associações.

A carga horária semanal de intervenção também se mantém baixa. Segundo o MAB, 56,5% dos entrevistados informaram realizar no máximo duas horas de terapia por semana, percentual distante das recomendações internacionais, que sugerem abordagens multidisciplinares com maior intensidade. Na prática, 25,9% relatam apenas uma hora semanal e 18,1% não fazem qualquer terapia.

Quanto ao perfil demográfico, 60,8% dos autistas declararam-se brancos, 32% pardos, 5,2% pretos, 1,1% amarelos e 0,25% indígenas. A maioria (65,3%) é do sexo masculino e 72,1% têm até 17 anos. Em termos de renda, 28,6% pertencem a famílias com rendimento mensal de até R$ 2.862, 37,9% ficam entre R$ 2.862 e R$ 9.540 e 20,3% ultrapassam R$ 9.540. Nos níveis de suporte, 53,7% estão no nível 1, 33,7% no nível 2 e 12,6% no nível 3.

Entre as comorbidades mais citadas estão transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (51,5%), transtornos de ansiedade (41,1%) e distúrbios do sono (27,9%). Na comunicação, 55,5% utilizam frases completas, 29,5% fazem ecolalias, 28,1% falam poucas palavras e 7,6% não falam nem usam comunicação alternativa.

O estudo também traçou o perfil dos cuidadores: 96% são pais ou mães, sendo 92,4% mães. Mais da metade (55,2%) possui ensino superior ou pós-graduação, porém 30,5% estão fora do mercado de trabalho. Essa condição, segundo o instituto, expõe fragilidades econômicas e aumenta a dependência de políticas de proteção social. Dos respondentes, 76,6% utilizam algum benefício, mas a maioria se restringe a cartão de identificação (36,7%), atendimento preferencial (30%) e vaga de estacionamento (20,7%). O Benefício de Prestação Continuada alcança 16,6% dos entrevistados.

Em relação ao momento do diagnóstico, 51,7% ocorreram até os quatro anos de idade, 17,1% entre cinco e nove anos e 6,1% entre dez e 14 anos. A mediana é de quatro anos, mas a média chega a 11 anos, sugerindo um número relevante de diagnósticos tardios. Os primeiros sinais foram percebidos principalmente por familiares (55,9%) ou pelo próprio autista (11,4%). Neurologistas ou neuropediatras responderam por 67% dos laudos, seguidos por psiquiatras (22,9%).

Regionalmente, 55,2% dos diagnósticos ocorreram em serviços privados, 23% por meio de planos de saúde e 20,4% no SUS. A dependência da rede pública é maior nas regiões Norte e Nordeste. Entre as terapias mais relatadas estão psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e Análise do Comportamento Aplicada (ABA) (29,8%). Sessões de fisioterapia, nutrição, musicoterapia, psicomotricidade, equoterapia e estimulação precoce aparecem com menor frequência, e 16,4% dos entrevistados não realizam qualquer terapia.

Pesquisa nacional indica dificuldades no diagnóstico e no acesso a terapias para autistas no Brasil - Radar da Saúde 15

Imagem: Radar da Saúde 15

O investimento mensal em tratamento concentra-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1.000 (24,8%), R$ 1.001 a R$ 3.000 (22,2%) e R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Gastos superiores a R$ 5.000 foram apontados por 4,3% dos respondentes, enquanto 5,7% desembolsam até R$ 100.

No campo educacional, 83,7% dos autistas frequentam alguma instituição de ensino – 52,3% na rede pública e 31% na rede privada. Apesar da presença escolar, 39,9% não recebem recursos de acessibilidade ou inclusão. Os apoios mais citados são educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

Para adultos entre 18 e 76 anos, a taxa de desemprego ou ausência de renda chega a 29,9%. Entre os que trabalham, 21,1% atuam como servidores públicos, 20% possuem carteira assinada, 8,1% exercem atividades autônomas, 6,7% são profissionais pessoa jurídica e 5,9% trabalham sem registro. Há ainda 4,1% dependentes de auxílio governamental, 3,5% aposentados ou pensionistas e 0,35% militares.

Ao relacionar essas informações, o Mapa Autismo Brasil evidencia que barreiras no diagnóstico, na intensidade terapêutica, na inclusão escolar e na participação no mercado de trabalho continuam impactando de forma significativa a vida de autistas e de suas famílias, apontando desafios para o aprimoramento das políticas públicas de saúde, educação e assistência social.

Crédito da imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *