O novo surto de ebola na República Democrática do Congo mobilizou o destacamento de boinas-azuis da Missão das Nações Unidas no país (Monusco), que reúne militares de 45 nações e é comandada, pela sexta vez consecutiva, por um general brasileiro. Ulisses de Mesquita Gomes, atual force commander, deslocou parte do contingente para a província de Ituri, região de floresta densa onde o vírus foi detectado e onde atuam mais de 120 grupos armados.
Ao todo, 29 militares brasileiros integram a missão. Dez deles trabalham diretamente no gabinete do comandante, incluindo duas mulheres. Outros 13 compõem a Equipe Móvel de Treinamento de Guerra na Selva, responsável por capacitar tropas da Monusco e das Forças Armadas congolesas, sobretudo em Beni, área marcada pelo confronto com facções rebeldes como as Forças Democráticas Aliadas, ligadas ao Estado Islâmico. Quatro oficiais, entre eles uma mulher, servem incorporados ao contingente uruguaio em Goma, no leste do país.
Foco simultâneo em segurança e saúde
Historicamente voltada para a proteção de civis e o apoio ao governo local contra grupos insurgentes, a Monusco amplia agora sua atuação para enfrentar também a ameaça biológica. A decisão foi tomada após a confirmação de novos casos de ebola nos arredores de Ituri, uma das províncias que formam a Bacia do Congo, segunda maior floresta tropical do mundo e área de difícil acesso logístico.
Segundo o general Gomes, o plano de contingência sanitária se apoia em quatro eixos: prevenção, identificação, tratamento precoce e conscientização. O monitoramento diário de sintomas, a auto-observação por 21 dias — período máximo de incubação — e o uso de equipamentos de proteção individual fazem parte da rotina de todas as patrulhas. As medidas abrangem tanto a tropa quanto a população local, já que muitas operações incluem evacuação aeromédica de civis.
Protocolos rígidos de contenção
Diferentemente de vírus de alta dispersão aérea, o ebola é transmitido por contato direto com fluidos corporais contaminados, como sangue, suor ou sêmen. Por isso, as barreiras físicas têm prioridade. Bases operacionais e postos de saúde mantêm triagem térmica na entrada, processos de desinfecção contínua e zonas de isolamento imediato para casos suspeitos. Qualquer paciente permanece separado da comunidade pelo período completo de 21 dias.
A coordenação com a rede hospitalar congolesa busca evitar que unidades de atendimento se tornem focos secundários de contágio. Equipes médicas recebem treinamento específico ministrado pelo componente brasileiro, que também orienta enfermeiros locais sobre descarte de material biológico e procedimentos de enterro seguro, medidas consideradas essenciais para impedir a propagação do vírus em áreas remotas.
Engajamento comunitário
Além do suporte militar e médico, a missão utiliza veículos de comunicação regionais para ampliar o alcance das informações de prevenção. Programas na rádio Okapi, emissora de ampla penetração no leste congolês, reforçam mensagens sobre higiene de mãos, reconhecimento de sintomas e busca antecipada de atendimento. Lideranças tradicionais e religiosas participam ativamente, ajudando a reduzir o estigma enfrentado por pacientes e familiares.
Imagem: Internet
Capacitação tática na selva
No plano de segurança, a Equipe Móvel de Treinamento de Guerra na Selva continua instruindo unidades congolesas e estrangeiras em técnicas de patrulha, navegação, sobrevivência e tiro de precisão em ambiente de floresta fechada. A preparação visa conter facções que atuam em Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, áreas ricas em recursos minerais e historicamente instáveis. Entre os adversários estão o grupo M23 e as Forças Democráticas Aliadas, responsáveis por ataques a civis e por deslocamentos internos de larga escala.
De acordo com Gomes, a presença de instrutores brasileiros funciona como divisor de águas na região, pois alia conhecimento de selva à doutrina de operações de paz. A meta é elevar a autonomia das forças locais para que consigam proteger comunidades mesmo após a retirada gradual da Monusco, prevista em resoluções do Conselho de Segurança.
Prestígio diplomático brasileiro
O comando sucessivo de oficiais-generais do Brasil desde 2013 consolida a imagem do país como parceiro confiável em operações multilaterais. Além de chefiar a força militar, os brasileiros participam de fóruns internos da ONU que discutem logística, saúde pública e direitos humanos. Segundo o force commander, essa atuação reforça o compromisso assumido pelo Brasil ainda em 1945, quando assinou a Carta das Nações Unidas, de contribuir para a manutenção da paz e da segurança internacionais.
À medida que o surto de ebola avança e os conflitos armados persistem, a Monusco mantém operações terrestres e aéreas contínuas para proteger civis, apoiar o governo congolês e impedir que o vírus se alastre para províncias vizinhas ou países limítrofes. Os resultados imediatos serão avaliados nas próximas semanas, período considerado crítico pelos epidemiologistas e estrategistas militares envolvidos na operação.
Crédito da imagem: ONU News




