Fiocruz divulga novos dados sobre condições de vida e saúde da população idosa brasileira

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tornaram públicos, nesta terça-feira (26), os resultados da terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). O levantamento, realizado em 2023-2024, reúne informações de abrangência nacional sobre pessoas com 60 anos ou mais e disponibiliza cerca de 100 indicadores em plataforma on-line para consulta aberta.

Considerado um dos estudos mais amplos sobre envelhecimento no país, o Elsi-Brasil investiga condições de vida, funcionalidade, ambiente social e acesso a políticas públicas. A nova etapa confirma que características urbanas, fatores sociais e estrutura dos serviços impactam diretamente a qualidade de vida da população idosa, deslocando o debate para além da presença ou ausência de doenças.

Entre os destaques, 42,7% dos entrevistados que residem em áreas urbanas relataram medo de cair por causa de irregularidades em calçadas ou vias próximas de suas casas. O percentual chega a 50,5% entre mulheres e fica em 31,9% entre homens. A proporção também cresce conforme o avanço da idade: 35,2% no grupo de 60 a 69 anos, 47,1% entre 70 e 79 anos e 63,1% entre pessoas com 80 anos ou mais.

O estudo aponta ainda que 12,1% dos idosos consideram a vizinhança “muito insegura” em relação à violência e à criminalidade, o que corresponde a aproximadamente 3,8 milhões de brasileiros. A percepção é semelhante entre homens e mulheres e relativamente constante nas diferentes faixas etárias, indicando caráter generalizado do problema.

A hipertensão arterial sistêmica permanece como condição prevalente. A aferição domiciliar da pressão, realizada com metodologia padronizada, mostrou que 34,4% dos participantes apresentaram níveis iguais ou superiores a 14 por 9. Esse índice representa cerca de 11 milhões de pessoas que demandam acompanhamento clínico para prevenir complicações como infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência renal. A prevalência sobe de 31,9% entre 60 e 69 anos para 40,1% entre idosos com 80 anos ou mais, sem diferença estatisticamente significativa entre os sexos.

A perda de capacidade funcional constitui outro ponto central. Segundo o levantamento, 20,4% dos idosos relatam dificuldade para executar ao menos uma atividade básica da vida diária — vestir-se, tomar banho, alimentar-se, usar o banheiro ou levantar-se da cama. Em números absolutos, são cerca de 6,5 milhões de brasileiros vivendo com algum grau de limitação. O problema afeta 23,1% das mulheres e 17% dos homens, com crescimento acentuado nas idades mais avançadas: de 13,9% no grupo de 60 a 69 anos para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais.

A rede de apoio mostra fragilidades. Entre os idosos que enfrentam limitações, somente 37,9% recebem ajuda de outra pessoa. A proporção aumenta com a idade, passando de 24,1% (60–69 anos) para 55,4% (80 anos ou mais). Apenas 5,8% dos cuidadores declararam ter recebido treinamento, o que evidencia ausência de políticas estruturadas de formação e suporte a cuidadores familiares ou informais.

O Sistema Único de Saúde (SUS) mantém papel predominante: cerca de dois terços da população idosa utilizam exclusivamente a rede pública para atendimento médico. A Estratégia Saúde da Família (ESF) cobre 69,2% das pessoas com 60 anos ou mais, o que equivale a aproximadamente 22,2 milhões de brasileiros, reforçando a importância da atenção primária no cuidado contínuo dessa faixa etária.

Fiocruz divulga novos dados sobre condições de vida e saúde da população idosa brasileira - Radar da Saúde

Imagem: Radar da Saúde

Para facilitar o acompanhamento das informações, Fiocruz e UFMG lançaram um painel interativo que reúne os cerca de 100 indicadores coletados. A ferramenta, hospedada na plataforma do Elsi-Brasil, permite que pesquisadores, gestores públicos e organizações sociais monitorem, em tempo real, diversas dimensões do envelhecimento, como autonomia, funcionalidade, segurança e condições ambientais.

O projeto está alinhado à Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030, iniciativa da Organização das Nações Unidas que incentiva ações integradas capazes de assegurar vida longa com qualidade. A disponibilização pública dos dados pretende subsidiar decisões sobre acessibilidade urbana, mobilidade, prevenção de doenças crônicas e políticas de cuidado de longa duração.

O Elsi-Brasil começou em 2015-2016, passou por nova coleta de dados em 2019-2021 e agora conclui a terceira rodada. A metodologia segue protocolos internacionais, o que possibilita comparação com pesquisas semelhantes conduzidas em outras regiões do mundo e amplia o intercâmbio de evidências científicas sobre envelhecimento.

Com a continuidade do estudo e a atualização periódica dos indicadores, os responsáveis esperam oferecer subsídios para revisão de estratégias públicas, adequação de serviços de saúde e planejamento urbano que contemplem as necessidades de uma população em acelerado processo de envelhecimento.

Crédito da imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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