O surto de ebola registrado na província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo (RD Congo), intensifica o risco de fome num país onde 26,5 milhões de pessoas já enfrentam insegurança alimentar aguda. A combinação entre crise sanitária e escassez de alimentos pressiona comunidades vulneráveis e amplia a necessidade de assistência humanitária rápida e coordenada.
A nova emergência foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 17 de maio, depois da confirmação de casos da estirpe Bundibugyo, considerada altamente transmissível e de elevada letalidade. Até sexta-feira, 22 de maio, mais de 750 casos suspeitos e 177 mortes haviam sido notificados, incluindo registros no vizinho Uganda. A situação reforça a preocupação com a propagação regional do vírus.
Não há vacina ou tratamento aprovado para essa variante de ebola, o que torna indispensáveis medidas de prevenção, rastreamento de contatos e isolamento de pacientes. A elevada mobilidade populacional dentro da RD Congo e o fluxo migratório pelas fronteiras aumentam o potencial de disseminação da doença para outras províncias e países próximos.
O avanço do surto coincide com um período de escassez alimentar severa no leste congolês. Informações do Programa Mundial de Alimentos (WFP) indicam que, só nas províncias orientais, cerca de 10 milhões de pessoas sofrem fome extrema. Em Ituri, epicentro da epidemia, 1,7 milhão de moradores encontram-se em situação classificada como crise alimentar ou pior.
Para conter simultaneamente o risco de contágio e o agravamento da fome, o WFP propõe uma resposta integrada que reúna saúde pública, logística e distribuição de alimentos. O plano envolve o transporte de equipes médicas, o envio de equipamentos de proteção individual e a entrega de cestas básicas em comunidades de difícil acesso, onde bloqueios de estradas e violência armada limitam a chegada de suprimentos essenciais.
A instabilidade de segurança permanece como obstáculo significativo. A presença de grupos armados, ataques a comboios humanitários e deslocamentos forçados de civis dificultam o trabalho de profissionais de saúde e de assistência alimentar. Esses fatores elevam o risco de transmissão, uma vez que populações em movimento podem levar o vírus a áreas anteriormente não afetadas.
Frente a esse cenário, o WFP atua em parceria com o governo congolês, a OMS e outras organizações para criar corredores humanitários, instalar centros temporários de tratamento e identificar pontos críticos de transmissão. A experiência acumulada em surtos anteriores orienta as ações atuais. Em 2018, durante o episódio de ebola na província de Bas-Uélé, a agência das Nações Unidas forneceu transporte de insumos médicos, construiu armazéns de emergência e distribuiu rações a famílias em quarentena, contribuindo para conter a expansão do vírus.
Imagem: Internet
Apesar do histórico de respostas bem-sucedidas, o WFP alerta que a falta de recursos financeiros pode comprometer a capacidade de atender todas as pessoas necessitadas. A agência faz apelo a doadores internacionais para reforçar o financiamento das operações em curso, garantindo suprimentos médicos, alimentos e suporte logístico nos próximos meses.
Autoridades de saúde locais e parceiros internacionais monitoram possíveis rotas de expansão do surto para outras áreas da RD Congo e países vizinhos. Enquanto não houver vacina nem tratamento específico, o controle da doença dependerá de vigilância comunitária, práticas básicas de higiene e oferta regular de alimentos que desestimule deslocamentos motivados pela busca de comida.
O objetivo declarado pelas agências humanitárias é reduzir, de forma simultânea, o risco de contágio e o impacto da fome, assegurando condições mínimas de sobrevivência para as populações mais expostas à nova crise.
Crédito da imagem: OMS/Lindsay Mackenzie




