Fiocruz inicia pesquisa para ampliar uso da PrEP entre jovens de 15 a 24 anos

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia deu início nesta sexta-feira (10) a um estudo voltado a aumentar a prevenção do HIV entre adolescentes e jovens que vivem em áreas periféricas. A pesquisa, batizada de PrEP na Comunidade (COmPrEP), avaliará a eficácia do fornecimento comunitário da profilaxia pré-exposição (PrEP) em comparação com o modelo tradicional, realizado em serviços de saúde.

A investigação terá foco em pessoas de 15 a 24 anos, com ênfase em homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans. De acordo com os coordenadores, esse grupo reúne hoje uma das maiores taxas de incidência de infecção pelo vírus e, ao mesmo tempo, enfrenta dificuldade de acesso a serviços de prevenção. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que apenas 0,2% dos usuários de PrEP têm entre 15 e 19 anos, faixa etária que registra crescimento de novos casos.

O projeto abrangerá Salvador e São Paulo, cidades que receberão aproximadamente 1,4 mil participantes. Na capital baiana, a coordenação é dos professores Laio Magno e Inês Dourado, vinculados à Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na capital paulista, a responsabilidade está com Alexandre Granjeiro e Márcia Couto, da Faculdade de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP). O financiamento é do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, e há participação da Universidade do Alabama. O Ministério da Saúde, secretarias locais e organizações da sociedade civil integram a parceria.

A proposta de testar a oferta da PrEP em ambiente comunitário surgiu a partir de experiências anteriores com adolescentes. Pesquisas realizadas pelos mesmos autores mostraram que, para muitos jovens, os serviços de saúde não são acolhedores, sobretudo para quem pertence à diversidade sexual e de gênero. Estigma e discriminação foram apontados como barreiras frequentes ao acesso.

No formato que será analisado, educadores pares — jovens da própria comunidade treinados e supervisionados por equipes clínicas — atuarão como ponte entre o público-alvo e a profilaxia. Esses educadores oferecerão aconselhamento sobre testagem e o medicamento preventivo em locais de convivência identificados previamente, como praças, centros culturais, eventos e pontos de encontro noturnos. O objetivo é comparar se essa estratégia aumenta o número de usuários que iniciam, mantêm e concluem o regime diário da PrEP por até 12 meses.

Os voluntários serão sorteados para dois grupos. O primeiro seguirá o modelo convencional, recebendo atendimento em unidades de saúde. O segundo experimentará o cuidado comunitário conduzido por educadores pares, com supervisão médica periódica. Entre os parâmetros que serão monitorados estão adesão, taxa de continuidade, efeito adverso e novas infecções. Resultados de ambas as modalidades serão acompanhados até 2028.

Antes da fase de campo, os pesquisadores realizaram mapeamento nos centros de Salvador e São Paulo para identificar onde os jovens socializam. Esse levantamento considerou características territoriais, horários de maior movimento e aspectos culturais de cada ponto. O mapeamento servirá de base para as ações de abordagem e também permitirá avaliar variações regionais no comportamento de risco.

Fiocruz inicia pesquisa para ampliar uso da PrEP entre jovens de 15 a 24 anos - Radar da Saúde

Imagem: Radar da Saúde

O cronograma prevê conclusão do estudo piloto em junho. Entre setembro e outubro, começa o recrutamento formal dos participantes nos locais selecionados. Cada indivíduo que aceitar participar passará por triagem inicial, que inclui testes rápidos de HIV e avaliação clínica. Após cumprir os critérios de elegibilidade, o voluntário será alocado em um dos braços do estudo.

A profilaxia pré-exposição consiste em usar antirretrovirais diariamente antes de qualquer contato de risco, formando barreira que impede a replicação do HIV. Quando adotado de forma consistente, o método reduz significativamente a probabilidade de infecção. A ampliação do acesso à PrEP é apontada pelo Ministério da Saúde como estratégia prioritária para frear a transmissão do vírus, principalmente entre populações com maior vulnerabilidade epidemiológica.

Pesquisadores envolvidos ressaltam que o COmPrEP pretende oferecer evidências sobre a viabilidade de modelos alternativos de cuidado, capazes de superar os obstáculos que afastam adolescentes e jovens dos serviços convencionais. Caso o formato com educadores pares demonstre melhor desempenho, os dados poderão subsidiar políticas públicas que incorporem o método em outras capitais brasileiras.

Crédito da imagem: Reuters/Direitos Reservados

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