Protesto na Avenida Paulista reúne milhares em defesa da legalização da maconha

Dezenas de milhares de pessoas ocuparam a região do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), na Avenida Paulista, na tarde deste domingo, 21 de junho de 2026, para reivindicar a legalização da maconha no país. A mobilização, intitulada 18ª Marcha da Maconha, concentrou apoiadores, ativistas e organizações que defendem a regulamentação da cannabis, destacando os impactos negativos da criminalização sobre o sistema prisional e sobre o acesso ao uso medicinal da planta.

Ao longo do percurso, camisetas, faixas e cartazes expuseram críticas às restrições impostas a medicamentos derivados da cannabis e relacionaram o debate a outros temas sociais. Entre as mensagens mais visíveis, manifestantes lembraram que “maconha não mata, mas o feminicídio, sim”, associando a pauta da legalização à necessidade de enfrentar violências de gênero. A manifestação reuniu um público heterogêneo, formado por idosos, pais e mães acompanhados de crianças, além de jovens adultos que caminharam lado a lado sob forte esquema de monitoramento de trânsito, comum em grandes atos na principal via paulistana.

Participantes reiteraram que a proibição da planta, em vigor desde a década de 1930, sobrecarrega o sistema carcerário, criminaliza usuários e estimula a estigmatização de quem recorre à cannabis em tratamentos de saúde. Os organizadores ressaltaram que, embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorize a importação de produtos à base de canabidiol, o processo permanece caro e burocrático, limitando o acesso a famílias com maior poder aquisitivo. Também enfatizaram que crianças, adolescentes e adultos sob prescrição médica já utilizam a substância para controle de epilepsias, dores crônicas e distúrbios do sono.

Entre os relatos individuais, a professora de educação infantil Stephanie Oliveira, de 27 anos, participou da marcha pela primeira vez acompanhada do namorado. A docente relatou que sua mãe, de 47 anos, utiliza óleo de cannabis para regular o sono e aliviar dores nas costas, mas que ainda enfrenta preconceito no ambiente de trabalho e na família. Stephanie ponderou que chegou a hesitar em publicar imagens do ato nas redes sociais por receio da reação de colegas de profissão, mas decidiu fazê-lo para reforçar o debate sobre direitos dos pacientes e para contribuir com a normalização do assunto, ainda pouco discutido em seu círculo profissional.

Dados do anuário da Kaya Mind, organização dedicada à sistematização de informações sobre o setor canábico no Brasil, indicam que cerca de 50 mil pessoas no país declaram realizar tratamentos com produtos derivados da Cannabis sativa. O estudo, financiado pela Gravital Clínica Canábica e pela Cannect, destaca que a baixa aceitação social da planta dificulta o avanço regulatório. Essa resistência, segundo o relatório, mantém as discussões legislativas travadas, restringe a oferta de medicamentos nacionais e obriga pacientes a importarem itens de alto custo, prática inviável para a maioria da população.

Protesto na Avenida Paulista reúne milhares em defesa da legalização da maconha - Radar da Saúde

Imagem: Radar da Saúde

Outra fonte de referência, o levantamento Bliss Data 2026, aponta que mulheres de meia-idade e no início da velhice formam o principal grupo de usuários da cannabis medicinal. Para especialistas ouvidos pelo estudo, esse perfil demográfico reflete a busca por terapias menos invasivas no tratamento de condições como artrite, insônia e sintomas da menopausa, embora o estigma social ainda seja um obstáculo para a divulgação de resultados clínicos e para o compartilhamento de experiências entre pacientes.

Ao final da marcha, representantes de coletivos promotores do evento reafirmaram o compromisso de manter o diálogo com parlamentares federais e estaduais a fim de destravar propostas que tratam da permissão para cultivo, produção e distribuição de derivados da maconha no território brasileiro. Eles também reiteraram a intenção de ampliar campanhas públicas de informação sobre o uso terapêutico da planta e de fortalecer redes de apoio a familiares que dependem da importação dos medicamentos, aguardando avanços na legislação para produção nacional e redução de custos.

Crédito da imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

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