ONU prepara diretrizes para conter escalada global de mortes por opioides

Radar da Saúde

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), elabora um novo conjunto de diretrizes destinado a apoiar governos no enfrentamento da crise provocada pelos opioides. O documento, em fase final de revisão, propõe recomendações baseadas em evidências para ampliar o acesso a tratamentos eficazes, reduzir overdoses e padronizar cuidados comunitários.

Escala do problema

Dados recentes indicam que 316 milhões de pessoas utilizaram opioides em 2023. Desse total, aproximadamente 61 milhões recorreram às substâncias sem finalidade médica. O número estimado de indivíduos que apresentam transtornos relacionados ao consumo desses analgésicos atinge 64 milhões em todo o mundo, mas menos de 10% recebem algum tipo de tratamento especializado.

Os opioides respondem pela maior fatia das mortes associadas ao uso de entorpecentes. Segundo estimativas consolidadas pela OMS, eles estão ligados a 75% dos cerca de 600 mil óbitos anuais atribuídos a drogas. Esses indicadores reforçam a urgência de políticas amplas, acessíveis e de alta qualidade para prevenção, redução de danos e recuperação.

Metodologia de elaboração

O guia em desenvolvimento conta com o trabalho do Grupo de Elaboração de Diretrizes (GDG) da OMS, formado por especialistas que analisam pesquisas quantitativas e qualitativas disponíveis na literatura médica. O colegiado avalia benefícios, possíveis danos, custo-efetividade, questões de equidade e aceitabilidade social antes de definir cada recomendação.

Além do GDG, um Grupo de Coordenação e o Comitê de Revisão de Diretrizes da OMS acompanham o processo. A expectativa é que o material seja concluído ainda este ano, com publicação prevista para o fim de 2024 ou, no mais tardar, início de 2025. Caso ocorram ajustes adicionais, o prazo final se estende até 2027, garantindo tempo para revisões técnicas e consultas a stakeholders.

Tratamento de manutenção

Entre os pontos centrais, o texto reafirma a indicação de agonistas opioides — principalmente metadona e buprenorfina oral — como padrão para tratamento de manutenção em dependência. O protocolo prevê prescrição e acompanhamento por profissionais credenciados, com metas de recuperação definidas em conjunto com cada paciente.

O documento amplia, porém, o leque terapêutico ao recomendar novas formulações de buprenorfina injetável de longa ação. A alternativa, considerada mais prática para alguns perfis de usuário, poderá reduzir barreiras de adesão, simplificar esquemas de dosagem e diminuir riscos de desvio de medicação.

Gestão de overdose e atenção comunitária

As diretrizes também abrangem estratégias para gestão comunitária de overdoses. Entre elas estão treinamento de leigos e profissionais de saúde para uso de antídotos, criação de redes de distribuição de naloxona e protocolos de resposta rápida em espaços públicos. A Opas prioriza a adoção de abordagens éticas, viáveis e fundamentadas em evidências, de modo a integrar prevenção, tratamento e reabilitação.

ONU prepara diretrizes para conter escalada global de mortes por opioides - Imagem do artigo original

Imagem: profissiais médicos credenciados

Ao oferecer um conjunto estruturado de recomendações, a agência busca apoiar países na formulação de políticas públicas consistentes. O pacote final incluirá perfis de evidências, orientações práticas de implementação, indicadores de monitoramento e identificação de lacunas que exigem novas pesquisas.

Próximos passos

Após a publicação, prevista para o período de 2024 a início de 2027, a Opas planeja promover workshops regionais com gestores de saúde, profissionais clínicos e representantes de organizações da sociedade civil. O objetivo é facilitar a adaptação nacional das diretrizes, respeitando especificidades epidemiológicas e capacidade operacional de cada sistema de saúde.

Governos interessados receberão apoio técnico para incorporar as recomendações em protocolos clínicos, capacitar equipes e ampliar a oferta de medicamentos essenciais. Paralelamente, serão estimulados investimentos em vigilância epidemiológica, avaliação de impacto e campanhas de informação direcionadas a grupos de maior vulnerabilidade.

Com a conclusão do guia, espera-se fortalecer a resposta coordenada à crise de opioides, reduzindo mortalidade, melhorando a qualidade de vida de pessoas com transtornos por uso de substâncias e promovendo a integração de cuidados em saúde pública nos países das Américas.

Crédito da imagem: Opas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *